28.12.08

aqueles longos corredores vazios, anos atrás.


honey,

é imoral, eu sei. estive usando as cartas para provocar ciúme. estive inventando as cartas para caber no ciúme. ou mais: inventei o ciúme para que existissem as cartas. eu não pensava que as lesse. e sabendo disso, usei-as a meu favor, fazendo valer todos os seus artifícios & caprichos. só que você ainda não me escutava. não levava seu ouvido junto a minha boca para ouvir o que eu estava dizendo. ou fingia que não. e continuava lendo tudo aquilo que só alguém desmedido como eu pode escrever. então veio o problema das cartas. então veio a sua falta inteira de alguma reação. mas se eu havia inventado o ciúme por que não dizia nada e continuava sem me ouvir? entendi depois que uma grande falha saltava das dobras da página, da datilografia nervosa que se pronunciava desde o cabeçalho até aquelas despedidas melosas seguidas de inúmeros ps's: você não existia. ainda.
pois precisei desescrever, desaprender e destruir o mundo inteiro que eu conhecia. tudo porque eu ainda não existia também. e nele.
se a invenção do ciúmes foi imoral, o outro trabalho que me coube foi de uma natureza puramente pornográfica, de apuro técnico: eu tive que inventar você. para que coubesse no ciúme. para que o ciúme existisse em você. e nascendo assim, apenas me quisesse. all the time.
e me exigisse tanto em meio às coisas distraídas que se acercam de mim, em meio ao caos da civilização, ou no meio da noite e com medo do escuro.
e por onde eu estive? e por onde esteve? e por que todo esse trabalho de inventar o que já existiu antes? pois naqueles longos corredores vazios, só eu e você, atravessando diversas camadas de silêncio, com os passos se atrasando só para demorarem mais, o amor não precisou de invenção. primeiro eu, com você fingindo que nada. anos depois, vem você, cleptomaníaco. e foi acontecendo: primeiro, aquilo de querer-me all the time, seguido do ciúmes do sol, do sal & do mar e das coisas que a água traz. e eu comecei a existir. e como verdade que é, você já estava lá. existindo.
nessa mesma hora, seu ouvido e aproximou de minha boca e, finalmente, ouviu aquela coisa obscena que eu dizia. passei a escrever mais nervoso, sem técnica alguma, sem freio, sem receio de que não...e você inventou meu ciúmes. inventou as minhas cartas que cabiam no ciúmes. inventou-me. por amor.

2 comentários:

danpiantino disse...

o apuro técnico dá lugar a explosão de um texto totalmente "conficcional" (conhecer essa expressão do gárcia lopes devo para você pelo resto da vida). É incrível ver quanta poesia pode ser lida entre verdades bem escritas. E seu ritmo se tornou mais fluido, como um trapezista naquele momento eterno depois do giro mortal e antes de segurar firme em outros braços.

camipoetisa disse...

achei lindo. inspirador. um luxo!

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