25.1.12
o país das sombras
sim. é sempre no país das sombras que eu posso te encontrar. tu, tua cara amassada e cansada de sol, teu beijo dormido e envenenado, tuas mãos cobrindo as minhas mais secretas palavras, teus abraços intrusos de quando o lençol cai da cama e toca o chão. todo-lugar é onde eu te encontro, esse continente insular do coração. de nada adianta sair pelas ruas e procurar refresco em novos rostos - é sempre o teu que enxergo, de longe, a contragosto, em meio à ressaca brava de anônimos. é tu, olho d'água, turbilhão. ficar em casa, fechado a quatro cantos, também não ajuda: quando não são teus passos, é tua voz que me segue pelo espaço das peças. a casa é toda tua, como se ainda cá morasse. ou morresse. pois é como espírito que te recebo nas noites, acordando-me aos sobressaltos e aos espantos mais espalmados. não queria eu frequentar-te tantas vezes. o passaporte, infelizmente, tem visto para até mais nunca. talvez porque os amores inacabados sejam para nós a sombra da sobra, a parte clarinha da escuridão.
7.1.12
meditação
dear:
cruze o coração para as palavras. confesse, jure, ajoelhe-se sobre o conteúdo das palavras. se não for verdadeiro, um dia o amor deixará o pedestal, terá se desmanchado no ar, deixado de ser estátua, deixado de ser um. terá se afastado lentamente da civilização do leste, aquela que vê o mundo nascer primeiro. por medo de que o sinistro emerja do poente, às vezes guardo o silêncio e tranco as portas de casa. e tudo se faz tão descontente até que eu caminhe com os pés descalços em terra sagrada, e tome o amor como um lugar de oração e macia morada.
18.12.11
sobre a relva
13.10.11
a lebre branca

honey:
há muitos anos é esperado o filho de deus. a chegada de alguém que nunca-jamais partiu. o homem não veio do macaco. o macaco veio do homem. deus veio do homem. o universo veio de o quê? do filho do homem. então: o progresso levou às guerras. as ruínas da guerra, a mais progresso. para onde e por quê? eu me perguntava, e pergunto, ainda e muito. volta e meia enlaço-me nas perguntas de sempre, com bravata de quem dá uma gravata e se atira ao chão. double k.o. muitas vezes as respostas, pressentindo minha aproximação, se assustam e desembestam como animais selvagens pelo coração adentro. uma só ficou para trás, como lebre ferida, atravessada pelo disparo e ainda assim feliz. o que quero dizer: há muitos anos era esperada a chegada do amor. e percorria eu a savana seca, de roupas cáqui, botas negras, rifle e tranquilizantes. o jipe ia até o interior do congo pegar o suspiro do último macaco negro, do último parente do homem, de deus, do filho do homem. eu deixava o corpo ir até debaixo do rio, qualquer lugar, seixo, gruta que pudesse abrigar o rufar de tambores. o peito, festivo como cerimônia tribal, era o que eu esperava. já não preciso mais querer nada, posso deitar-me na relva, ser devorado pela pantera negra e servir de pasto aos animais pequenos. é da lebre branca, linda, que falo. fui até tão longe para te encontrar e te jurar uma só vez: de hoje não passa, de nós nunca mais passa. antes os caminhos eram dois ou vários, mas sei que só uma estrada de terra agora eu quero. posso ser devorado, poderia - mas espera deus, falo a este deus inventado por todos os homens, espera: dá-me mais tempo. é chegado o amor e este afeto precisa de muitos meses para se estender. os quilômetros da áfrica seriam poucos. nem saímos daqui, nem primitivos ainda somos. qualquer tempo seria pouco para nós que corríamos de atrás do outro. e não espero mais nada - nem qualquer outra resposta. quando tu me perguntas se desejo perpetuidade, juro que quero e já nem me importo de onde o universo veio. importam apenas estas tardes preguiçosas e demoradas do cão perdigueiro sobre a lebre branca.
30.8.11
haunted house
dear:
os espíritos têm vindo aos milhares. enchem a casa. já não suporto mais os suspiros, o mexer de coisas, o balançar de quadros. já me incomodam os calafrios, os sussurros de gente morta, a porta aberta do quarto. o cheiro de flores do oriente penetra o espaço. é tarde, é tarde, amor, e tanto tremo que fico mais enamorado dos dias que das madrugadas. é à noite que as tábuas estalam; nas tempestades que os relâmpagos iluminam os vultos e os ventos fazem seus votos. não pense que me assusto por qualquer coisa. os espíritos não têm vozes, nem cor ou gosto. e ainda assim: seus signos penduram-se pelo teto como móbiles. tudo é uma lembrança, um afresco, uma indisposição. o que mais me assusta, porém, não são os sopros mortos dos antepassados, mas a ausência dos teus fados e do teu corpo na minha carne.
16.7.11
aquela idade de ouro

dear:
não queríamos esquecer e não compreendíamos a razão de qualquer esquecimento. os dias de ouro haviam chegado. muitas palavras doces roçadas no ouvido, ligações intermináveis, um querer mais próximo e com ganas de violar a física. a febre de uma boca sobre a outra provocava uma infusão de gosto na saliva, e as línguas curtiam uma água saborosa. de tanta vontade, o tempo e o espaço eram montados em um puzzle-fotografia de nós dois. era o que sempre nos deixava felizes: saber que sempre poderíamos, não importava o que fosse, era possível. no entanto: as minas pararam de jorrar. de início pensamos que fosse apenas um mal-entendido, mas eles começaram a chegar com tamanha frequência que já não nos dávamos conta de sua origem. a palavra-de-ouvido foi substituída pelas brigas de dedo em riste, os telefonemas tornaram-se pedidos de devolução ou de nunca-mais. o bem-querer virou um estado insone, de cada qual em seu quarto vazio. depois da quebra, inventávamos tempo e espaço para não nos encontrarmos nunca e, se acontecia, fingíamos não tomar conhecimento de nada. era sempre uma saída à esquerda ou à direita, onde fugir fosse mais rápido. os objetos não reclamados foram para o lixo; as fotografias, rasgadas; a escova de dentes, por raiva, serviu para limpeza de sapatos. e pensar que antes de atirarmos tudo no porão, de condenar aqueles momentos à idade média, tivemos a impressão de que tudo seria delícia vindoura. e agora, incorrespondentes, a única certeza que temos é a de que esquecer é a única compreensão possível. a única atitude da qual não iremos nos furtar nem nunca.
18.6.11
o turista

dear:
às vezes é solitário. só às vezes. é apenas quando me sento na sacada, sem qualquer outro movimento pela casa, sem quase nenhum som da rua. vez em quando é assim. as madrugadas nunca estão a salvo de uma travessia. como um turista, além do limite de bagagens, visito lugares próximos ou distantes. próximos e distantes. tenho as fotografias das viagens comigo, a lembrança das estadias, dos hotéis, dos passeios de barco e de trem. tem sorrisos que não se podem esquecer. há despedidas que não querem ser esquecidas. e outras coisas, também, que persistem na indefinição, voltando à força e de súbito. completamente irresponsáveis, sem consideração por mim. talvez seja porque certos abraços fundem distâncias, reinos soberanos de nunca mais se ver. e pra quê, pergunto eu. não sei te responder. mas é verdade o que eu sinto. às vezes tenho medo de dormir sozinho, e também de esperar por ti que nunca vem. e se viesse, o que seria de nós? o que seriam daquelas noites, daqueles filmes, daquelas tardes chuvosas em casa? não seriam lembrança e, sim, um tempo contínuo. não quero mais isso, ou melhor, aquilo. prefiro o turismo perpétuo do que aqueles dias depois das noites, aqueles desentendimentos depois dos filmes, aquele silêncio engasgado durante as tardes. dear, só às vezes é solitário, nem sempre, e só escrevo hoje porque eu me sentei na sacada.
7.6.11
américa, américa

dear:
desde há muitas noites tenho tido sonhos. e como é difícil contá-los, só me resta registrar as impressões, os fragmentos. há lugares e rostos que reconheço. situações que nem tanto. coisas que desejo. e vem você me dizer que nem é assim tão perto. eu insisto em todas as deixas possíveis, eu canto, eu quero. me queixo. nem imagina você, já faz tanto tempo. a sombra do beija-flor cobriu a américa. lá, em algum lugar do continente, por mais que os lírios se abram vermelhos, sim, nos campos vermelhos, abrem-se lírios encarnados. por mais que eu recorde da cor de cor, espera, tenho que dizer: a ave, ainda assim, é atraída pelo veneno das papoulas e dos hibiscos. não importam meus avisos, por isso eu me olho e te vejo, como da primeira vez. e lembro: dos hibiscos tu fez tua lavra; das papoulas, a palavra enganada. e fui preterido, e fui só para o interior da ilha. aqui a terra é distinta, outra geografia do corpo, diversa cartografia. é tão mais isolada que nem posso. a américa é algo que já não posso mais. é sem volta, mesmo que dê voltas em meus sonhos, rememorando um passado antigo, sem tons gloriosos. desde há muitas noites eu vivo contigo. e só. como da segunda vez e até então.
17.5.11
typewriter

dear:
faz muito tempo, a palavra começou a desaparecer. é desta intimidade que sentiremos falta, da conversa enciumada de todos os dias, do corpo lavado e lustrado ao sol. talvez da fotografia, talvez das lembranças da varanda, talvez do humor estranho diante do buraco. mas é muito cedo para dizer, tarde para voltar atrás, amanhã demais para existir. hoje não quero nem pensar. só fico a mirar esta palavra, agora invisível na ruína do vento, perdida de modo irremediável na pobreza dos meus próprios pensamentos.
6.5.11
a sala vermelha

honey:
à tua imagem. é à tua imagem que escrevo. porque é exatamente apenas isto que vejo: tu-fotografia, tu-photografie. eu mesmo não me atrevo a mais, não quero marejar-me na sala vermelha, captar teus olhos, tua bocas, tus sonrisas. tudo porque não é apenas um retrato, mas um involuntário desentranhamento dos instantes antes do retrato. a memória é algo que não me esqueci. deveria ter me lembrado de te esquecer. deveria ter recordado que só há lembrança do que há. e o que houve entre nós, tu-photografie? acho que me lembro do que tenho em haver. de resto, o que foi recortado do todo como imagem, permanece. a tua imagem ainda acontece. algures. eu, agora, depois de ti, só aconteço como fragmento. e as paredes, as paredes deste quarto já assumem o mesmo tom encarnado. murmuro: tu, je, nous. photografie. quel image?


