21.9.18

feriado

dear,

o feriado desceu nas sacadas, nas ruas, nas gruas da construção civil. e eu caminhei por esse dia pachorrento, tímido das gentes, um tanto nublado, como quem abre um mar silencioso. queria mesmo é passear pelo bosque dos sicômoros, de mãos dadas contigo. deitar em verdes pastos feito imagem bucólica, cheia da febre dos campos e do amor dos pastores na relva. desceríamos o dia como em devaneio, friccionando as pálpebras contra as bocas da noite, esperando por beijos demorados de lua. não me consola essa paralisia do dia, essa distância, esse intervalo. o amor nunca deveria ter folga de trabalho. mas: as janelas estão fechadas e só me lembro de nós, interrompidos na estrada, debaixo de uma escada e com bastante azar. enquanto os outros dormem atrás das cortinas, acordado eu singro pelos sonhos, faço deles meu próprio mito, minto para mim que a fantasia pode virar estátua, pode virar gente, pode virar alegria. chutando pedras pelo caminho, vendo bisontes pichados pelas paredes, voltando a uma época pré-histórica, regredindo a um ponto osso, eu conjuro os dinossauros enamorados. eu conjuro a lactação infinita, a via láctea de um seio materno, derramando sobre mim um leite bom, um labor de amor que nos construa e faça de nossa existência multidão.

.: marcio markendorf

28.11.17

argonauta

my love,

ele deixou para trás, há muitos anos, uma cidade antiga. quase nem se lembrava mais do cheiro da terra, da aspereza das muralhas, da vitória das árvores retorcidas em ponta de abismo. o corpo era cerrado; a alma, mansa. ao longo do caminho foi deixando as armas, os brasões, a memória das entradas. atravessar a fronteira, às cavalgadas, foi como um batismo de sangue santo. na aldeia em que ele interrompeu viagem desordeira, os pés fizeram raízes, os galhos subiram a estrada. mas ainda não sabia ele que o tronco só dá sustento se lhe desenham no corpo uma sede, uma sombra, uma copa. muito de sol havia, mas não o consolo dos galhos braços de uma árvore vizinha. a alma, que era mansa, esteve por muito tempo inquieta: vagou pelas encostas, esqueceu-se pelas pedras, engoliu muita água de mar. encontraria ela um navio a lhe saudar da baía o tempo bom e a chegada da pescaria? era o que queria, mais que a fome, mais que o nome do homem que do alto a vigia.

foi quando viu, saindo da névoa em que se encontrava, um navio de cento e quarenta velas. o casco era arisco dos areais e, à distância, a embarcação lançou âncora e sinal de paz. uma só pessoa, uma só, desceu em um bote frágil e sem bagagem. a alma se fez de luz-guia e ainda pediu a deus a calmaria para a pequena passagem. frente a frente, a alma e o marinheiro eram como dois amantes, salvos de um naufrágio, perdidos em uma ilha. saudaram-se em um arrebol triste e, por isso, cheios da carne do por do sol, sentiram saudades da comunhão que sequer havia começado. a alma levou o viajante para perto da morada de árvore e, sem que uma palavra tivesse sido mencionada, o estrangeiro tatuou no tronco o símbolo do amor. e, para sempre, fez daquela sombra doce a sua casa; como da casca, fez a árvore o alimento para um peregrino argonauta, quem tanto o procurou.

assim seria nossa mitobiografia, amor, cuja história já não me basta, cuja história é apenas história, não a casca, a casa, o casco de uma samotrácia vitória. antes fosse um jonas no ventre da baleia, gestando o amor de dois homens irrepetíveis na paisagem. mas a ilha que nos afunda, sinto dizer, engole a civilização única que somos, faz dos nossos imperiais corpos, uma fagulha pequena, um estranhamento. faz também o retorno da víbora, a expulsão do pensamento, perdidos em dois que não se param de caçar e, apesar disto, nunca se encontram nos terrenos cercados do céu, da terra e do mar.



10.7.17

o cerco de constantinopla

my dear,

o descompasso entre os tempos, o do vivente e o da vivência, impede o recebimento de missivas. então, retorno à captura do instante antes por meio da fratura temporal, do encavalamento histórico. grande chiste, faísca, explosão? a pretensão de não me ser sendo: extravia-me a carne em pequenas postas, subtraia-me dos punhados de pós, pois de lá nós somos, para lá regressaremos em velocidade aterradora. tal é o horror cósmico das almas terrestres, caminhando a pé no leito dos mortos, sem qualquer velocino. a demência me consome com a invasão, menos que um sardanapalo mais que um nero. essas palavras retornam no tempo para tocar o instante anterior   o do cerco. os carpinteiros já derrubaram a cumeeira, ou eram de exército seu exercício? os templos arruinados, as escadas sangrentas, o amor entediado e desumano. todos e qualquer um, bem os sabia, cada qual um colosso equestre, carregando no ventre o ódio dos traídos. nada me cativa , pura carnificina de raposas, usadas agora em estolas e bolsas de griffe. ouço de longe a cítara, as setas silvando nas muralhas do chifre de ouro. foi pra isso, foi pra isso que vieram. o estuário anuncia a vinda de istambul e o fim. bósforo, mármara, negro, me acenam à distância, contemplativos, pesarosos. jerusalém, jerusalém, me encha agora da glória da peste negra, adoeça todos os cativos, amordace todos os combatentes, pois a idade moderna não é pra mim. os nativos do meu peito sempre serão bizantinos. por isso, nas profundezas da cidade destruída, recolho meus membros, minhas palavras e minhas dívidas. o alcance é pelo instante antes; depois, não haverá amorosa vida. e apenas o messias se achegará a mim, roçando minha garganta com o bitter-sweet corpo e sangue de cristo, signos de paixão que eu devoro, e quedo devoto, de joelhos embalsamados.

.:marcio markendorf

7.2.17

Ao curado por deus

Das montanhas, quero o movimento, o trânsito pleno no espaço, o encurtamento que somente a fé provoca entre dois pontos. Eu quero: usted. A hóstia, o pão, o sangue crístico, também a ressurreição das memórias, a remissão das faltas pretéritas e de agora. Quero ter a cabeça cortada de Isaac, a doce boca de Iokanaan - sacrifícios doloridos da paixão. Como o do Filho, em via crucis, os braços abertos num abraço de nunca, chorando o abandono do pai. E do país, uma terra de promessas, um deserto vasto antes de Canaã. Abandonado à sorte do jejum e da morte, voltando a todo recuerdo como Lázaro na gruta quente. Eu vos digo: quero ser aqueduto, em linha reta, jardim em suspensão, suspeita que eu quero. Ainda agora bebi o salmo, o mel, engoli Salomão e Reis, fiz poesias de Eclesiastes, me ajoelhei por você. Abri o peito, vermelho mar, revolvendo o Egito para depois, dando adeus, abraçando errância, dando as costas a deus. Menos a você, esta fragrância de erva e bezerro, imolação de. amor tenra e eterna. Como os lírios, os castelos e os dragões vindouros do céu férreo. Eu quero verdade, versículo, verbo. Quero que se faça a luz, o sétimo dia, um jardim de éden bem semeado. Tudo para que possamos dormir juntos, hasta siempre, completamente inebriados de aurora.

25.11.16

duração

honey,

brigamos outra vez. no entanto: tudo safe and sound. sem dedos em riste, palavras de ordem, pratos atirados no chão. apenas o silêncio centrípeto. as costas se mirando na cama. as mãos enfiadas entre as pernas, querendo um conforto que não há. e, sim, aquela tristeza característica: baixo profundo, feito um ganido de cão adulto, sem raça. choro que já me disse achar, com certo paradoxo, delicado e insuportável. como isto, esta data. e você acha que brigamos só porque ando sensível demais, que os dias encerrados no quarto não me fazem bem. a fratura no tornozelo, a solitude da casa fechada. volta e meia vou até a sacada, vejo o movimento da rua, sinto o vento, o sol. a vida não para. e lá dentro: as coisas fora da ordem. as roupas recolhidas na segunda fazendo aniversário no sofá da sala. a impossibilidade de deslocar o que quiser pela casa. duas muletas, duas mãos ocupadas em se equilibrar. andar é quase o que não faço, exceto nos cercados metros quadrados deste lugar. restam os filmes da televisão, a lista dos livros, o videogame como companhias insossas. e o cansaço de estar muito tempo comigo mesmo. e também com: as ranhuras na parede de gesso acartonado, a espera ansiosa pelo banho noturno, a despensa aumentando o vazio. me põe para baixo o cansaço do tempo que ando só, vendo os paranhos a aparecer nas esquinas do teto, notando o acumular de pelos nos ladrilhos da casa, ouvindo sem curiosidade os sons do corredor do prédio. se estou sensível é por este vazio, esta espera insuflada. como uma raposa que prepara o coração desde as seis da tarde, eu me preparo para sua chegada. o gesto ansioso de um cachorro a espera cronometrada do dono, depois de um entediante dia consigo, com seus latidos e nenhum afago. brigamos again. no entanto: quando ouço a porta se abrir, depois de tanto tempo aqui, tudo se desfaz. e somos nós dois outra vez.

17.7.16

o totem


eis-me aqui, diante de ti, para acertar as contas com meu passado. viajei até o mais longe para encontrar tu, monstro totêmico, razão de todos os meus fracassos. a ti nunca superei, e depois de tua estada furiosa em meu corpo, nunca mais encontrei a estrada tranquila dos dias. predador, predador, não fosse por este encontro, saberia ainda viver o encanto dos que tem desejo. mas por causa de ti, sim, eu dei as costas à civilização: a flor da barbárie cresceu em mim. e foi horrível, horrível. não vim de tão longe para sofrer outra imolação, voltei até o coração das trevas para sacrificar tua imagem sombria do meu pescoço. vês este machado? com ele farei minar o sangue, desfigurarei teus múltiplos rostos, deceparei tuas patas de leão, arrancarei o flanar de tuas asas. fostes ancestral em minha vida, o sinistro persecutório das penumbras, a ilha da terrível sede. mas neste momento em que me reencontro, o que digo é uma reza que me libera das liturgias que fazia a teus pés, giving you devotion. massa de carne e ossos, sangue e tripas, não significas mais nada para mim, nada tenho mais a ver contigo. teus louros escorrem pela terra, grossos e azedos; meus olhos debutam as histórias do novo mundo, nativos, ingênuos e limpos para o amor.

.: marcio markendorf

5.5.16

levezas de retorno

honey,
(ao som dos sussurros de caio e ana)


estive ausente por tanto tempo. me perdoa? sim, sim, eu recebi todas suas cartinhas tão deliciosas aos olhos (e tão mais carinhosas se fossem faladas ao ouvido). que desastre o dos morangos. já os vi daquele jeito, vermelhos, murchos, camadas de cinzento tátil. pior de tudo foi perder o suculento por nojo e estrago. mas não é assim que você está, baby. você é que se põe numa bandeja imaginária. puro balde de água fria. vai ver por isso os dragões não conhecem o paraíso: fazem do juízo interior uma pesada corrente. lembra dos tijolos? tijolos e pedras de calcutá. solta a sacola. é você quem decide o que carrega. leva da viagem verdades e souvenirs. se liberta na janela da alma muito mais graciosa. em horário comercial, de preferência. eu aqui, não paro de falar na morte que nem me parece negra nem suicida. driblei o medo. essa morte, hoje, me faz rir de vez em quando. faça como eu: dê risadas ébrias do que te assusta, não acalme a loucura. esconjura esses demônios de mofo e verde gris. alça teu voo ao som de mensagem mecânica, olivetti college, com erro de paginação e escuta de turbina: devido ao reposicionamento da aeromoça, o desembarque foi alterado. portão p. de paraíso.

te amo, não esquece, no singular e no plural.

.: marcio markendorf

2.5.16

como uma criança

honey,

como uma criança, eu acordo. as cobertas estão fora do lugar, arrastando as pontas pelo chão, o sono está a me puxar pelos olhos de volta para o colchão. como uma criança, percebo que já estou sozinho na cama, na casa. sensação aparentada do terror infantil do abandonado, daquele deixado de lado para que os pais possam trabalhar. talvez ainda mais ressonante: o medo de ser deixado no supermercado. e eu já enfrentei, tenho a experiência disso: uma vez, passeando serelepe por qualquer prateleira de balas e doces, me desgarrei de minha mãe, entrei em desespero com a perda de suas saias, corri por corredores, em pânico, de tê-la perdido sem volta; depois a encontrei, serena, escolhendo alguma marca de macarrão, como se nada. o medo foi sendo substituído pela raiva de não ter sido notado, de quase ter sido garoto perdido anunciado no microfone e à espera na frente do caixa. a experiência do trauma me faz trazer as cobertas até as orelhas, afundar no calor do útero de um quarto. mas não assim, amor, não tanto assim: como uma criança, eu sei que já fui deixado, mas é algo que tem volta, vivido sem preocupação, um fato muito bem desenhado. com essa certeza, eu corro para levantar mãos, pés e costas das cobertas, calço os chinelos, me enrolo no edredom para ir à caça dos bilhetes, sem rosto lavado, cara de dormido, marca de travesseiro babado. e encontro os pequenos tesouros como em manhã de páscoa, seguindo patas de coelho feitas de farinha branca. e como uma criança satisfeita com os doces, eu devoro os bilhetes deixados pela casa, os pequenos pedidos de socorro para que a semana acabe logo e a gente se encontre de novo.

como uma criança que ama as coisas do tamanho do céu, eu torno a manhã de segunda plena de sorrisos, daqui até o sol.

.: marcio markendorf

22.1.16

o campo de gerânios


"não tem matemática".
m.d.c.

o campo de gerânios se abriu ao meio. nem o mar vermelho, amor, se abriu tão inteiro. eu já nem esperava qualquer mágica, assombro, rajada de fogo. e ainda assim: certeiro. veio descendo dos céus um anjo, mas não tocou trombeta, não exterminou nada, nem disse palavra. o serafim só me apontou o caminho como que dizendo 'vai, segue por aqui'. e eu que já havia caminhado tanto, nem sei quantas vezes eu tinha desistido, perdendo as contas de quanto tinha insistido, eu mesmo já era uma jornada longa. meus pés eram um território; meus braços, um teto político. eu era errante ignorante de por qual razão eu errava. olhei para os gerânios, sem marca de susto, ainda augustos mesmo que deitados no chão sendo caminho. depois do exílio, um passeio delicado para os pés cansados. pensei que veria um cortejo ou um castelo entre as pontas do campo. perdido em pensamentos, perdi o anjo. também perdi o medo. e encontrei na vista, em travessia pelo campo, outra errância em pessoa. obedeci o mando angelical por medo de adoecer porque quem não ouve deus desconhece o bálsamo da cura. e porque eu era impotente no deserto, nada era importante, era menos que um doente. tinha ultrapassado o jejum e o santo, a paz e a loucura. eu não sabia qual era nossa distância, mas, a cada passada de aproximação, os olhos cresciam de maravilha. até que: juntos. || a dois. as castanhas dos olhos castanhos, tão doces, tão enamoradas. porque não havia matemática, linguagem concreta, mensurável, imediata, aconchegamos rosto contra rosto, reconhecendo naquele encontro o desejo repetido nos antigos sonhos. era enlace perpétuo, repleto, prometido - sabíamos.
as almas, naquele instante, eram os próprios gerânios, uma paisagem de longilíneo campo florido.

.: marcio markendorf


29.8.15

o amor de saturno

my-oh-my,

depois que o tempo depôs o vento, vieram vindo. não eram muitos, mas eram violentos os eventos. a poeira sobre a terra, as nuvens, o córtex das águas. tudo. era quase impossível ver. a velocidade de deslocamento era de quatrocentos mil quilômetros por segundo, sem dó. e, em seguida, não havia mais pó, apenas uma nuvem de gás no espaço, só uma radiação invisível e mutiladora. por seis dias, desde que o planeta saturno sumiu, os continentes não se mexeram, as águas não subiram, os animais não se moveram. eram diamante e âncora de antebraço procurando um ponto-e-vírgula. e, sem nem acreditar, decalcando do impossível o ser-verdade, a tarde trouxe: na arquitetura medieval das areias, um príncipe. eu sou eu, eu sou seu, soul. os anéis eram duplos, como par e como promessa, sem pressa de se separar. deus, cura-me, cura-me com este nome curado por deus. (a prece, para quem reza de core, desce, lentamente, dos céus). a tempestade solar caiu queimando tudo, selando os espíritos, os corações fiat lux. nos seiscentos dias seguintes - um pouco mais talvez - as luas foram de mel. por fim, poesia-de-fim-de-dia, lá longe, um flamingo voou da carne e fez do rosa uma estrada majestosa do amor.

.: marcio markendorf

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