3.4.09

countryside IV

eis-me aqui, diante de ti, para zerar os calendários do passado. viajei até o mais longe de mim para encontrar tu, monstro totêmico, razão de todos os meus fracassos. a ti nunca superei e depois de tua estada furiosa no meu corpo, nunca mais havia encontrado a tranquilidade das paixões. predador, predador, não fosse por este encontro, um dia poderias provocar a minha morte. eu dou as costas à civilização: é o meu momento de barbárie. não vim diante de ti para ser outra vez o imolado cordeiro. vim até o coração das trevas sacrificar tua imagem em nome da libertação e da sobrevivência.
vês este machado? com ele farei minar a seiva da tua madeira. deceparei tuas patas de leão, arrancarei tuas asas de águia e mutilarei teu rabo de tigre. fostes ancestral em minha vida, aterrorizando-me sem que a arqueologia ousasse desenterrar-te de mim. mas agora estarei liberto de todas as liturgias que me escravizaram aos teus pés. vendo-te de carne e osso, quem me deterá? não significas mais nada a mim e nada tenho a ver contigo. teus louros, teu livro de ouro, teus incensos e tua mirra? desapareceram.
vês aquele comboio ferroviário? batalhões de homens descerão dele, derrubarão esta floresta e a encherão de concreto e asfalto. mas tu, não penses tu que será alguma coisa ainda. nem obelisco, nem meio-fio, nem guia para cegos tu serás na minha metrópole mental. como acaricia-me tuas ranhuras, tua indiferença completa ao meu calor debutante. predador, estou aqui para destruir tua presença avassaladora na minha história. convenço-me a morrer-te por mim e morrer por ti em mim. bem ouço teus gritos de socorro, os guinchos de animal ferido, mas nada mais me deterá, tu que fingiste desconhecer meus gemidos abafados e meu choro desesperado singrando as noites, tu não me importas mais. com esta viagem e esta epifania quebrantarei tua imagem: olho por olho, dente por dente. já não precisarei mais me reduzir para caber no teu oco nem violentar-me à procura do gozo.
vês estas tochas? irei incinerar tua face simbólica e esta pira funerária será minha última libação a ti. tu havias me condenado ao exílio nesta ilha de terrível sede, tu havias. contudo, neste momento, enquanto queimas, deus está morto, tu meu deus, meu ídolo de madeira, meu totem e meu tabu. ora em diante só quero a saciedade continental, o amor-menino.
por muito tempo eu vivi a fábula de que um dia eu retornaria aqui, mostrar-te-ia minhas cicatrizes da selvageria da civilização, e tu, predador, tu sentirias remorso e arrependimento por nunca te aperceberes de mim aos teus pés e tão demorado. e, por certo, me amarias, reorganizando todo o caos e toda a devoração do universo. e como filho teu, seria devorado por ti e renasceria de tuas coxas num ciclo infinito de repetições. entretanto voltei aqui inúmeras vezes, com cicatrizes cada vez piores, e nunca. a fábula fora apenas uma ilusão para sobreviver. eu necessitava sobreviver a ti, predador, a invenção que tu eras para mim. nascera feito lírio no meu peito para ser armador, amador e amante meu. fora de domínio, o monstro sem nome que da marcenaria mental se levantou, tornou-se o que tu és para mim. predador, predador. ah, tu provocarias minha morte algum dia. e o que tu provocas agora? nada, o nada, esta é minha felicidade. eu me cubro com tuas cinzas tal qual quarta-feira após o carnaval. estou satisfeito, repleto, superei, superei teu monumento insípido no meu corpo. que preparem o mel e o sal: estou voltando e deixando para sempre e para trás o countryside.

Um comentário:

danpiantino disse...

Olho para esse narrador e vejo um homem sobre um monte de ossos. Ele toma a palavra entre as mãos, as mesmas que investiram contra seu algoz, parte dele e feito de muitos. Profetas, heróis míticos, homens da história, eles tiveram essa mesma voz e também souberam encontrar quem os desse alívio, colo e alimento após suas vitórias.
Quantas vezes me perdi nas leituras da série Countryside. Seus símbolos fortes e os deslizes entre narrador-leitor-personagem-totem são uma floresta sombria pela qual o leitor precisa atravessar seu rito de passagem. E no final uma conquista - "de alguma forma que não posso provar, sinto que compartilho fragmentos de memória com esse escritor" - poderão dizer os leitores assíduos. Acompanhar um texto tenso por semanas e poder respirar alívio literário no final, é sempre bom.
Adeus Contryside, que venham novas incorrespondências, afetos e histórias para este que narra sua vitória na floresta de símbolos.

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