14.3.10

[sobre a ternura em mim]

baby:
quando me deitei esta noite, sentia-me imensamente pesado. era como se a qualquer momento meu corpo fosse atravessar o colchão, as ripas do estrado, o piso, os andares de baixo, o cimento, a terra amassada. era como se toda a leveza do mundo houvesse desaparecido. e talvez tenha. ou talvez lá fora os gatos já caiam de costas no chão e o mundo esteja de pernas para o ar. desde o começo o dia começou estranho. desci às ruas, ainda sonolento, e de repente compreendi que entre os pedestres, dentro dos carros, no interior dos edifícios, na curva do elevados, nas areias das praias há, pelo menos, cinco ou seis amantes que desconheço por completo. e que me desconhecem. talvez não cinco ou seis, mas uma centena, um milhar. e é bem possível que já tenhamos nos cruzado nas esquinas, estado nos mesmos lugares, à mesma hora, durante o mesmo dia preguiçoso ou demais de atarefado. e compreendi que minha força para o amor nasce de uma impotência: tudo o que quero não existe ainda ou é ignorado. pois duras foram as batalhas com quem conheci de verdade, que viveram comigo, que provaram do meu pão e da minha casa. foram todas lutas corpo a corpo, dentro e fora da linguagem, e das quais sempre saí me sentindo derrotado. entendo que cada vez é mais difícil o espaço aéreo dos sonhadores, entendo que posso estar me entregando às fantasias. algo que pode ser fatal. por isso estou aguardando o tempo passar. tento compreender a natureza de minhas exigências, só não consigo perceber quais erros eu cometo para que tudo saia aos destroços. não houve ninguém ainda que fosse inteiramente meu. percebe a gravidade? paixões existiram das mais violentas. há algum tempo, no entanto, a última grande sensação me deixou. ainda que fosse perturbadora da minha calma de sempre, daquelas que desfazem o jardim zen de um espírito, prefiro aqueles dias de ansiedade, som e fúria a este vazio tão pesado. gostaria de pedir perdão às minhas más atitudes e gostaria de produzir na minha própria carne o bálsamo de cura para as feridas de quem eu também já deixei. mas isto só seria possível com o mesmo perdão e o mesmo bálsamo daqueles amores que me deixaram ou, quando muito, dos que nunca chegaram a vir-a-ser. significa que de outros modos eu peço perdão a mim por ter me contentado com tão pouco e ceder à impaciência de encontrar o eldorado da paixão. o encadeamento das trocas afetivas é cada vez mais parecido com um sonho, como parece ser próprio das pessoas dessa índole. e como parece ser impróprio para os dias de hoje. é difícil sonhar quando você só consegue comer as fatias da realidade, obedecendo a uma dieta restrita e venenosa. baby, só a grandes paixões são capazes de grandes ações. de tão pesado, estou colado ao colchão, mal me mexo. então: o que vai ser dessa noite, o que vai ser de mim?

2 comentários:

Christiano Scheiner disse...

escrever é uma das ações mais grandiosas de um sonhador, amado, e se bem gosto: é nisso que postamos de nossas ficções fragmentadas mixadas nesse jogo de dieta (perfeito!). mais uma vez me emociona com tanto discernimento, a ação se torna uma fábula, talvez. não sei. pesado é que todos nós nos encontramos. bjns.

Anônimo disse...

Nem sempre as grandes paixões são capazes de grandes ações meu querido...

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