23.9.06

correspondência grega.

"tempo em que não se diz mais: meu amor.
porque o amor resultou inútil"
carlos drummond de andrade
(...)
meu amor,
o coração não está seco, porque o amor é uma ordem. mas há algo diferente na razão ancestral: eu a perco. e as faíscas em volta iluminam como incontáveis fogos de réveillon. o ano começa quando o coração retorna. e nem sei o que fazer nem o que dizer. toda vez que meus olhos cruzam com outros olhos algo estala, crepita, queima. e cada um dos pares desvia pro outro lado sem graça sem saber por onde. e ninguém diz nada. vez em quando um sorriso, uma cumplicidade. ao mesmo tempo uma distância. paixão platônica. sufixo de inflamação para algo que inflama, machuca, incomoda. e tenho consciência de que não poderei entregar o que quero e receber as partes que não me pertencem e desejo. mas mesmo assim o amor não resulta inútil. cada encontro é uma mudança, cada coragem é um avanço. bandeiras, bandeiras, a cruz vermelha do lado de fora do front. feridas, band-aids, gaze. (tem horas que a faixa de gaza é aqui dentro. um terrorismo de corações explodindo). fico atento às notícias do rádio: o amor é um instante-já, não adianta morrer. o sonho apagou depois do rosto luminoso. fogos de artifício explodem - olhos, bocas, corações atentos e inflamados. por onde vai a farmácia de platão? aguardo a vitória de samotrácia no meu peito.

Um comentário:

letícia. disse...

tem horas que a faixa de gaza é aqui dentro.

amo você.

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