25.10.06

tauromaquia de carta e capa


honey,

todos os dias enfrento o perigo de te amar. perigo que vem de um tempo selvagem, no qual os deuses se devoravam e nasciam das próprias côxas, pêlos e peles. e por perigo, tenho medo de permitir esse tempo. ponho-me de sentinela nesta arena, para que não me devore sem que eu perceba, e nem perceba o quanto já te devoro ciumento. e acho que entende meu medo porque teu medo é o mesmo meu: reconhece em mim o medo que em mim mora. então foge, você também, do perigo sedento. anda com os passos apressados, corridos, do ritmo das ruas. e te perco lá fundo, no labirinto de esquinas e praças, cada um apalpando um escuro cego, sem data, íntimo e silencioso, precioso como a palavra. enquanto isso o coração se espraia no asfalto, nos muros duros de tijolo, cal e vidro, nas areias de praia, nas costas dos teus olhos, no suor dos teus cabelos banhados de sol. mas como tu, eu me fecho, calo os olhos, me incendeio cego e mudo no mundo. a tensão dramática de um silêncio às escuras e em chamas. um silêncio que de hora em hora devora outro silêncio para acalmar o dorso do tigre rajado que aqui mora. eu confesso que te amo, mas desconverso como se fosse outra coisa, sem instante antes, dinâmico, apenas um agora já-sido e indeterminado, passado e escondido. sei que me perco na fuga. e me perdendo, o que me resta então? não sou se não o que te digo. o que sou se tu não me és por dentro é isso: "eu sou antes, eu sou quase, eu sou nunca. e tudo isso ganhei ao deixar de te amar". e te deixo, num canto, ao relento, na madrugada de prata. mas tu, amor, tu eu sabia de cor, como o anímico-selvagem tempo que me desata por dentro. eu quebro as linhas que versam teu amor, a água-viva quebra nas ondas do mar avassalador. enquanto o meu eu se enche de ternura, afetos e malas de viagem. e fere os touros, balança as capas e escapa morto de medo, do vermelho do teu sopro bufado, da espuma e das babas do mar.

2 comentários:

pedro p. disse...

impactante.
aurevoir. \o

Anônimo disse...

lindo ;}

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