12.4.07

epístola da iluminação.


honey,

venha comer o fogo de minha carne. te dou de beber feito um conviva. isto é uma festa. aqui eu faço versos bêbados flambados. sim, sim eu acredito no amor como quem acredita em deus, pois eu sou um cego tateando inseguro os mistérios da criação. tudo aquilo que não posso ver, eu sinto como o princípio de um verbo e o fim de um precipício de silêncios e gemidos. bem onde uma boca diz para outra boca que as franjas de leão são pura flor de carne viva. lá onde eu digo, depois de um trabalho cumprido, que os litorais são espumados de diamante para os quais uso picareta de chumbo e soldadinhos de porcelana. não, por favor bricabraque, não brinque comigo. eu tenho compreensões internas o tempo todo que me deixam nu em pêlo nos jardins do éden. nessas horas as linhas de pesca não tem tempo de lançar sobre mim qualquer sombra e então eu sou o mais belo peixe prateado das águas do nilo. quando eu compreendo alguma coisa eu verdadeiramente sou alguma coisa. quando eu não compreendo nada é como se eu estivesse enterrado vivo no corpo de um lobo e vivendo morto dos pêlos de um cordeiro. ora, deixe disto, você é meu convidado! é verdade sim que eu tenho mais gozo por sentir do que por entender. sentir é algo que antecede qualquer pensamento, vai ver por isso de tempos em tempos eu tenho a convicção provisória de que pertenço ao entre-pensamento. inclusive ao pré-pensamento primitivo, ritual e orgânico, ao ato voraz de devorar pensamentos e carnes cruas. eu só penetro no entendimento a cada vitória de minha consciência sentimental sobre a pele dura e o rosto suado de deus. a partir daí cada vislumbre é demiúrgico, cada vestígio de luz é um vaticínio: recolho cada uma das folhas da floresta de símbolos e revelo a seiva bruta que as inspirou de um sopro. pela raiz eu pego tudo o que sou e lanço acima tudo o que gozo. a árvore dos prazeres mora em mim sem bem ou mal. minha fotossíntese não depende da moral dos homens, eu sou anterior, eu sou a cápsula, a semente. não estou bêbado. este é um jorro divino, nupcial e amante. então venha comer da minha carne em fogo e queimar a boca nas labaredas do meu corpo. me pega no vôo de pássaro antes que eu derreta meus ossos e vire apenas cinzas. antes que eu acorde nas fezes das achas antigas e saia renovado até o fiapo da linguagem. mas agora vem comigo, entra por essa porta: é festa.

4 comentários:

Sérgio disse...

Isso é um tipo de arqueologia do imaterial e do neutro que devem habitar o "atrás do pensamento". M.M diria que as referências de seu projeto estão em sua maioria em A.C. Mas o que ele alcança, com expressiva originalidade autoral, é um limbo fronteiriço entre ele, A.C e C.L. Sofisticado drama que se exibe como chama de vela. Mas como pegar no que não se vê? Resposta possível: urdindo uma narrativa com fios de linguagem que se evolam de vestígios de faiança, diamantes e ouro. Lê-se o intangível, os reflexos do embate entre o sentir, o ser e o dizer.

batavinho disse...

omnia vincit amor, 30.03.07

navegarei por entre os mares, os sete possíveis, com meu barco, até encontrar você-ilha.
quando sentir-se desamparado, esquecido pelo outros e despedaçado pela morte, movimente-se. ao ritmo do mar, traga você-ilha até meu barco. ancorarei por entre suas beiras e daí não sairei jamais.

você-ilha.
eu-barco.
amor-mar-amor.

Alberto Pereira Jr. disse...

tempos que não passava por aqui.. mas eis que a bonança dos dias me trouxe novamente ao palácio das belas palavras.

Hugo disse...

acreditar no amor como quem acredita em Deus: incondicionalmente, sem nenhuma prova de sua existência, apenas com a premissa de fé. bonito e romântico. mas será que vale a pena? :}

mas eu que sempre busquei meu dano, não posso reclamar.

beijos (tava sem passar aqui há um bom tempo, né? não sei como aguentei)

Pesquisar o malote