11.5.07

carta sem valor.


honey,

para te dizer meu mundo preciso construir o canal que ligue meus sentidos ao que escrevo. um canal, uma vala, uma página. faço aqui a transferência poética da minha alma: eu te desejo. e a faço mesmo que o mundo não faça sentido – e seja cruel e odioso – porque eu apreendo os sentidos naquilo que meus sentidos aprendem: o sentimento de amor. e não há troca simbólica que o represente. a representação por si mesma é impossível. não sei dizer, não posso dizer, não é possível dizer ou poder dizê-lo. apenas o meu corpo poderia verbalizar a mínima conjugação dos verbos que me sentem e com os quais eu te sinto. ainda assim não saberia tudo sobre o meu mundo. saber-me-ia pela metonímia, pelo fracionado, pelo estilhaçado, nunca podendo me saber no todo e no inteiro porque este é indizível. eu não poderia nunca te nomear sucedendo que no dia mesmo que te chamasse por um nome, fundaria a distância que nos afundaria e nos afogaria num mar sem cor ou chamas. seria o novo dia de um velho tempo no qual os lobos-do-mar são apenas cordeiros-da-terra. sem valor de troca, como trocar em palavras as coisas que sinto? eu saberia apenas te comunicar o desespero de uma impossibilidade. e se o teu coração for realmente sensível é exatamente na lacuna e no interdito que compreenderia o meu por dentro. quanto mais grave for meu silêncio de angústia, mais profundo será o amor que sinto. as horas seguintes a que te escrevo serão gritantes de silêncio. um silêncio de horas e espera. a espera de que teu ouvido se ponha a escuta de meu coração comprido e se deixe navegar nas comportas do que eu nunca digo e ainda não posso: eu te amo. tanto.

4 comentários:

Sérgio disse...

Brilhante. Lição de poética sobre a duração. Tô pasmo, embora já reconhecesse o sopro do poeta.

Anderson Jardim disse...

Simplesmente fantástico... texto perfeito.. cada dia te admiro mais. Abração

Hugo disse...

eu tenho essa mania de absorver o estilo literário dos autores que eu admiro muito. só que eu simplesmente não consigo copiar - nem de longe - o teu jeito de escrever. e isso me faz ter verdadeira idolatria pelo teu blogue.
:}

(confissão)

Ricardo disse...

Um silêncio de horas que se estende por dias... Mas e a espera?

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