30.8.07

descompromisso.


dear,

os correios estão passando rápido demais por mim. e eu, entregue ao jamais. um pouco, talvez, como alguém num corredor para sarajevo, usando black-tie. sinto que ando escrevendo para dentro, o que é quase um sequestro do destinatário. descobri isso quando passei a receber respostas de susto e preocupação. e eu que nem sei se quero mesmo dizer exatamente tudo que há por aqui, andei a mastigar os verbos e fazer versos cifrados. se me falta exatidão, também falta paciência e um punhado de paz. assim como o céu lá fora, me ameaçando com sua incerteza poética, sua indecidibilidade. a ameaça de aniquilação dessa poesia é que me faz desligar os televisores e odiar as previsões do tempo. há tanto tempo para o tempo, menos para a história do mundo, feita de cadáveres do tempo (o que é outra história). hoje o dia está bonito: faço lábios de cera para os lábios de mel de uma abelha-leoa, uma abelha-rainha. me sinto uma majestade. às vezes, me sinto também uma construção. a coisa inconclusa, inacabada, lentamente fazendo um esqueleto do inexistente a um futuro de concreto. sabe, dear, eu bem queria escapar dessa américa suicida, sem índios, sem cor, castelhana até o pó e até os portos de itajaí, paranaguá, santos, mesmo que só de passagem. não sei o que está acontecendo com os dias: nenhum só carteiro por aqui. dói tanto no papel de carta essa solidão que sigo escrevendo para dentro. inconfessando absolutamente tudo. vê se me esquece, depois me inventa de novo. musicalmente, por favor.

4 comentários:

Agatha. disse...

Se todo estado de alma é mesmo uma paisagem como dizem...sua paisagem é uma única árvore no anoitecer refletida num lago.

Sérgio disse...

Eu fico comovido quando leio "escritas para dentro". Algo me é familiar nisso.

Alberto Pereira Jr. disse...

queria eu escrever para dentro textos do quilate de sua autoria...

sempre extasiante!

Anônimo disse...

O fado do esquecimento é um castigo cruel, capaz de matar o condenado.
E a morte, o fim de quem vive (já disse o poeta), pode representar realmente um FIM. Sem missa na St. Paul, cetro e toda elegância monárquica, já a Vida ao futuro pertence, e o futuro começa agora e já se torna passado, que não deixa de auxiliar no presente com os subsídios necessários ao futuro.

ps: agora que já lí e comentei os últimos chega. o comentador anônimo. gostei dessa opção.
( ) google/blooger
( ) Outro
( X ) Anônimo - até parece antônimo ou até mesmo antônio.

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