24.1.09

imagem.



dear,

o corpo de um poema não informa nada sobre quem escreve o poema. um poema dá a ver uma imagem, não um homem. o homem que escreve está feito de estilhas; o discurso, um pouco mais coerente, inteiro. não paro de desejar notícias, mas também não me arrisco aos jornais. às vezes não ver é o mesmo que estar, face to face, a um passo, um pé, da última grande tragédia. e eu só tenho a mínima culpa. acredite. nem sabe o quanto queria retornar as palavras para o devido lugar. as palavras dele. eu só queria que não associasse mais o meu rosto às palavras - aquelas palavras. minha américa é rural, de pastos verdes, cercas de madeira, postes de luz amarela. os meus deuses são rurais. os meus santos são rurais. não há como não perceber minha cara de menino amante, rural. então vim para cidade - cheia de becos, bocas, beijos - e aprendi que é preciso amar tanto o mundo para que deus exista. mas qual mundo? o último hecatombe atômico destruiu o cristo redentor, destruiu a hercílio luz, destruiu são sebastião, encheu de concreto as praias - e estou só. se acreditasse em mim, iria até o inferno e voltaria, trazendo a certeza absurda do triunfo. agora não. desisti dos joelhos arranhados. não quero dar a ver meu corpo no desnudamento do poema. o meu amor não é maior que o meu orgulho. por isso, baby, estou juntando os pedaços novamente, estou fazendo o homem, escrevendo-me poema. imagem.

3 comentários:

netin disse...

um recomeço,ou seja,um quebra cabeça cheio de peças até a formação de um algo que foi quebrado e pode ser sempre construído.

danpiantino disse...

"um poema dá a ver uma imagem, não um homem". Então se eu quisesse ver Clarice eu iria procurá-la em sua biografia ao invés de lê-la nas imagens que cria?
Acho que ambos concordamos que não.
Mas aí surge o leitor como mais do que uma máscara sem rosto e ameaça a escritora no presente de seu ato de escrita, é disso o que esse personagem metaescritor pretende se proteger, daqueles que podem colocar a mão sobre o lápis enquanto ele ainda escreve. um blog gera uma leitura muito próxima do tempo da escrita, mal dá tempo de secar a tinta e os leitores já passaram os olhos sobre o texto. Ambos trabalhamos a imagem do corpo de texto como corpo exposto e isso assusta. "Literatura não é documento", mas também não oferece escudo. Se as imagens da fé vacilam na explosão do viver-escrever, é para se transformarem em outras imagens e possibilidades, e escreve-se poema é fazer-se sobreviver após os fins.

Netin disse...

um recomeço,ou seja,um quebra cabeça cheio de peças até a formação de um algo que foi quebrado e pode ser sempre construído.

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