16.4.09

circus life circus


my dear,

há algo de hostil crescendo em mim. a selvageria de um tigre, pressinto, a recuperação da ferocidade no espírito de um tigre. essa coisa inominável e indomável toma o terreno interior de mim lentamente. acho que estou me perdendo na carruagem sob o céu, acho que estou dobrando as barras da jaula. estou sofrendo a distância entre o que é e o que deve ser. entre tudo o que é tigre e tudo o que é humano. entre tudo o que não sou e o que virei a ser. a hostilidade está nas malhas que me cobrem, no aço gasto da garra que engasta em mim, na mandíbula carnívora que devora a presa. há algo de cruel crescendo nas sombras dos meus pêlos. há algo nas sobras dos meus cabelos: estou cada vez mais felino e menos humano. estou dançarino no inumano - um pé animal, uma pata felina. esqueci do adestramento anterior e no círculo de fogo devorei o domador. quase certo que já não sei mais comunicar minha ternura. hiroshima puniu-me. o countryside aniquilou-me. antes desses eventos, a figura que meu corpo descrevia era do amor. agora recolho minhas sombras, fazendo delas as linhas raiadas desse corpo atávico. como se uma capa fosse, a sombra e o silêncio da sombra, desconheço-me. eu retorno para a civilização completamente desumanizado e cheio de uma febre funda de tão selvagem. alise meu dorso e perderá a mão; aproxime-se do meu focinho e perderá o rosto. quanto desgosto não ser mais eu. não aceitar que não sou, não comprender que não poderei mais vir a ser. o eu foi tão dolorido e tão corrompido. também não há tempo para o pensamento, encerro a questão com um instinto. não esboço uma idéia antes de partir para cima da carne trêmula. insisto: conquista-me ou devoro-te. conquista-me enquanto há tempo. o circo se abre e pegará fogo a mordida.
[imagem de: jean-léon gérôme, the return of the felines after the circus, 1883]

3 comentários:

Anônimo disse...

Um aviso ao mundo? Vingança de coração varado pelas doçuras de deus?
Perto do selvagem coração da vida, jovem artista?
Ar de anjo e garra de dragão?
Humanidade de bicho ou animalidade do humano?
Muito bom. Gostamos muito, o bicho e eu.

Christiano Scheiner disse...

deixa que o fogo pegue, meu amigo e não demonstra as garras aos fracos. transforma-as antes em amor fraterno.
beijos mil ;)

virgílio maciel disse...

sempre acompanhando teu blog. uma beleza.

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