26.8.09

ana & c


esta tarde sentei-me no banco para sentir o que o vento me dizia. e por um momento não existia o lá fora e seus ruídos cheios de nada. havia apenas o de dentro, azul royal. e o de dentro, por mais que não dissesse nada, era pleno de algo que a voz não podia. e em matéria de cor: o mar adentro. não havia nome na língua discursiva, o coração não chamava por ninguém, exceto o sobrenome de mim. marulhoso. eu nunca vivi tão intensamente quanto naquele intervalo: sentado, não queria escutar o mundo, era a vibração demorada das coisas que eu queria. e se eu tivesse me calado um pouco mais, se o silêncio fosse o de um estampido, teria caído de joelhos no grande segredo da vida. entretanto, perdi-o em um instante. o piscar de olhos, um cisco, um grão-rei de areia. o fato de estar tão próximo do universo, de deus e do infinito encheu-me de amor. uma flor-de-lis, balançando em um jardim carioca, talvez quisesse me dizer: 'isto é bliss'.

2 comentários:

danpiantino disse...

"ana & c", ana e caio, ana y cielo, ana e marcio a formar elos e... mas que reviravolta!
Apenas lembrei do contraste que Lorca monta na descrição de paisagens nem sempre belas e o sempre presente céu. Fosse de NY; fosse da espanha; para Lorca, cielo era sempre cielo e o preenchia. Se em boa parte de seus textos o remetente se mostra com torcicolo de tanto olhar pra baixo, nesse ele descobre que 'c' sempre estivera ao alcance dos olhos. (não, os olhos do rosto, na imagem de cabeçalho, não estão fechados, mas abertos para um dentro que é puro fora - mergulhado em céu).
Não trago Lorca à tona porque seu texto o pede; trago o nome de Lorca porque quero trazê-lo aos olhos de um escritor que fica bem com sotaque espânico. Caio Abreu cai diante do céu; cai diante de uma nova palavra: marulhoso. (pouco importa se neologismo ou não).

Sérgio disse...

Ana & Clarice:
"Quando estranho a palavra, aí é que ela alcança sentido. E quando estranho a vida, aí é que começa a vida!" (Água viva)
"...a gente não faz nada: fica apenas sentada deixando o mundo ser." (A descoberta do mundo)
"E ser é a minha mais profunda intimidade." (Um sopro de vida)
"Finíssimo resplendor de energia" (A descoberta do mundo)
"Passa-se a ter uma espécie de confiança no sofrimento e em seus caminhos tantas vezes indecifráveis." (Idem)
Ao que Ana emendaria tomando emprestado de K.M:
"bliss"
Lindo texto.

Pesquisar o malote