7.9.09

reiki lounge nº1

dear,

de onde estou vejo as marcas do barco preso ao teto. as ranhuras no gesso, no pé direito, no assoalho grudento. jogaram mel pelo chão para chamar as abelhas. talvez as sirenas. eu queria que fosse água para os beija-flores. eles, que fosse mais o céu do que o convés do mar. não era para tanto. só fico com um pouco de dor de imaginar que por um clarão que fosse, você pensou que era demasiado, que era hipérbole, que era desatinado....o que ainda não tinha nem sido. eu estava só de encanto e, para mim, estava bom. só queria seguir o som da tua flauta vazante e ver onde ia dar. por puro prazer de musicar na pele os sons do desejo, por prazer de querer alguém que, ao longe, de falésia, eu já tinha querido bem. pois bem. de onde estou, escrevo. vejo as manchas no caderno e a lanterna no vespeiro. recolho os rabiscos no papel couché, feitos em giz de cera. é quase a morte, o poema. é quase ilógico o desenho. fazer do pormenor, da coisa pequena, uma vida inteira de afetos não parece certo. nem de linha ou de corpo inteiro. então: de onde estou, não vejo muito. e o que vejo já se desfez no teto.

2 comentários:

tiago sem h disse...

As marcas do barco preso ao teto demonstram (ou parecem demonstrar) a mesma escrita palimpséstica com que nos deparamos quando criamos algo novo. De repente, o novo surge de imediato e a imagem primeira já desapareceu: "e o que vejo já se desfez no teto". (amei seu texto):)

danpiantino disse...

"só fico com um pouco de dor de imaginar que por um clarão que fosse, você pensou que era demasiado (...) o que ainda não tinha nem sido".
A "coisa pequena", "o pormenor", pode sim formar uma vida inteira de afetos. A isso chamamos intensidade, ou a tal verdade absoluta que defino como a reconfiguração de toda malha temporal.
Se o escritor de Longe nº1, fosse Borges, veria na ranhura o Aleph, e nele todas as ranhuras de todas as cartas e escritos, e assim a verdade que reconfiguraria todos um pormenores na mais intensa verdade.
Quando o pouco encontra um vazio preparado para fazê-lo grande, ele se torna muito. Um sorriso, uma piscada de olho, gestos simples e impensados, podem ser reconfigurados pelos olhos de alguém que os queira amar. E se o ator do gesto aumentado souber dançar, a verdade se constrói diante dos olhos. Todo truque é construído de antemão, mas a mágica é ver o mágico desafiando suas chances de ão conseguir, o que amamos é a teimosia do mágico.
Se o tal pouco não se tornou demasiado, é porque faltou verdade - termo antiquado para muitos, porém necessário para quem busca fazer de cada gesto uma chance de redenção de um passado tido como destruído, falo lembrando W.Benjamin.

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