8.5.10

a escura palavra-pintura



perdoa, coração, se te fiz mal. este é um momento no qual falo em silêncio. ouve com teus dentes esta carne que enuncia o discurso. morda as palavras com gosto, triture-as, amasse-as, cuspa-as até sentir nas mãos. vês? é uma garganta de sons doces, cheia de vozes e, por vezes, de veias e velozes vulcões. é da febre que nasce ali a minha culpa. inverto os nascedouros como quem inventa a certidão de desculpa para te ter ao avesso. fui cheio de arrepios até o rio, me arrepiei mais que um gato, mais que um cão, mais que uma selva inteira e africana. o vento é frio até mesmo para um tigre, até mesmo para um leão. perdoa, coração, perdoa se te fiz mal, se fui o mesmo e molhei o rosto nas recordações do que há de mais remoto. não quero presentear o passado com meus desejos de agora. é só por hoje, é só nostalgia, só língua cheia de saudade e idioma de línguas mortas. mas não me ignore, a pior ignorância é essa tua surdez distraída, seletiva, sedada. acorda, meu amor, acorda, pois eu falo com você. deixa de fingir a tranquilidade, me mostra o monumento de tua loucura: um obelisco, um cisco no olho, um circo de pensamentos tortos. eu sou o outro, eu sou ninguém? eu sou. e ponto. perdoa, coração, se te fiz mal, se só sei amar o que nunca existiu, se só conheço os sonhos de um surdo-mudo, de um cego em cima da ponte da noite. escura, escura: como a palavra-pintura de então.

4 comentários:

Branca disse...

De matar com tanta dor. Já pedi perdão tantas vezes que já não sei mais se devo pedir a mim ou à ela.

Anônimo disse...

o perdão traz a alforria, mas às vezes é tão difícil ganhar a liberdade. sonhar já é um bom começo.

Christiano Scheiner disse...

vc me corda e se pudesse dizer, me "dói de vez em quando", como Caio Fernando disse um dia; tá na hora de nos vermos, né? Ler-te às vezes não basta apenas. abraço bem forte. queria ser cúmplice do teu silêncio. ;)

Anônimo disse...

Você sempre foi o outro... um fingido esquecer, um triste lembrar..

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