31.10.10

do cais


honey:

sentado neste lugar vejo uma embarcação. meus sentidos dizem que está muito longe, paralisada na moldura oceânica. é tão irritante a incerteza, as ilusões, os truques, as palavras. gostaria que se aproximasse, abandonando no infinito furioso os receios de que a terra seja estrangeira. disseram, eu soube, disseram que no dia anterior seus tripulantes estiveram em paris. toda paris é uma festa. há quem possa esquecer e entregar-se completamente. gostaria de fazer igual, gostaria. mas à meia-noite o encanto se quebra e volto, outra vez, a não ter nada. então prefiro ser o eu, ninguém mais, sem fadas. mas me pergunto: o que teriam feito? homens sérios teriam beijado mulheres bêbadas, homens tortos arriscariam lábios sóbrios? atiro garrafas de cima do cais com meus maus pensamentos, minha inveja, meu ciúme. os vidros vão se aproximando nas águas, inventando o curso das ondas, logo abaixo das tábuas. ouço-as batendo umas nas outras, retinindo. é sempre assim: uma memória nada silenciosa. ah, quanta vontade de fazer também uma viagem. meus sentidos podem me enganar, mas não meu coração. deve ser isso que pensava penélope, avistando cada barco na areia da praia que não trazia consigo seu ulisses. 

Um comentário:

Christiano Scheiner disse...

uow! ;) curti muito, está belíssimo, é encantador quando tu demonstras as coisas que ninguém faz. e sempre associando aos antigos mitos e histórias. penélope, é linda a sua espera! saudadinha.

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