27.8.06

carta psicanalítica I


dear,

tem vezes que o sonho é um rangido: e ninguém dorme direito. a casa pode estar vazia, mas ninguém dorme. cubro as luzes com toalhas ou panos, fecho bem as cortinas. tudo é negro, mas sonoro. um jogo de imagens: um homem mastiga cacos de vidro, o sangue espirra em lençóis de prata, um carrossel reluz como bola de fogo. signos do inconsciente. minha mãe autoritária, meu pai morto, meu irmão desaparecido. tanta amargura para os dias. e algo range. não, não são as dobradiças da porta, mãe. um coração pulsa na boca do beijo, as bocas-de-leão florescem nas bocas de lobo, minha irmã grita comigo. mas eu não tenho irmãs. e o dia brilha pela janela, sol a pino, pipas, peões na calçada. minha irmã vai embora e não sinto nada. mas meu cachorro morre e é dolorido (eu tenho cinco anos). aos nove, meu peixe betta suicida bóia no aquário. tenho duas mortes nas costas e me sinto responsável. dear, nem quero que me entenda. os símbolos estão aí. a linguagem me processa, a língua me confunde, minha boca gruda no papel e os dentes rangem. te escrevo cartas de bruxo embora nessa noite seja sem verdade. não preciso de um analista. o que me incomoda é esse ruído, esse bruxismo. nem de longe cola o que escrevo no que eu devo sentir. escrever é muita violência. e quando pensam que é à queima-roupa, na verdade é um tiro que saiu pela culatra. e acertou o pobre coração desavisado. eu escrevo sonho áspero e rangido. para você, para os vizinhos.

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