12.11.06

carta relógio nº 5296


my dear,

escritura de metáfora para um domingo não combina muito comigo. para ninguém, eu acho. o domingo é um triturar delicado dos ossos do corpo. qualquer um queda esvaziado e sem jeito para o verbo. mas talvez eu precise te escrever algo assim, se passando por outra coisa, numa comparação violenta entre objetos distintos. então aviso que tudo que eu te disser hoje, é e não é. algo querendo se passar por outro algo que demora a enveredar, embora parecido e complicadamente igual. e assim posso me demorar nessa tarde estirada que não passa e só dá outras voltas num relógio de tempo sem. parecido com ontem: tempo sem. meu corpo dando voltas num relógio andarilho-dançarino que vaga e dança nas cordas de um som monótono, contínuo, torturante. tic tac tic tac tic tac. são horas de deixar a janela e esvaziar a esperança dos vidros, dos olhos, dos dedos. ando com mania de esfregar o dedo indicador no dedão, ensaiando um estalo que não sai porque o faço leve e macio demais, sentindo as polpas de pele deslizando, uma sobre a outra, de puro nervosismo. também deixei as sombras dos gatos lá fora, penduradas como roupas secas, duras e alvejadas até o esgarçamento de sobreaviso. sombras albinas de um dia de sol desenhando na calçada silhuetas escuras e sérias. depois esvaziei as coisas, extraí as cores, enchi o nada de colorido, tingi as coisas de azul e vermelho gritante. ficaram bonitas assim. depois quis esvaziar os verbos e te mandar cartas limpas, brancas e puras, sem pena alguma pousada, mas tive medo que pensasse em alguma desistência grave de minha parte. e eu só sei ser grave com o amor, como você sabe. e com tal gravidade, faço até gravura com o que sinto. ou gravo tudo bem fundo num poema demorado e cheio de rimas internas e musicalidade. mas agora não importa, se bem que não tenho pressa em te contar. assim que deixei a janela, deitei de olhos bem fechados na cama e esperei que todas as coisas morressem. até que o silêncio fosse tão comprido a ponto de eu só ouvir meu coração tirando a corda dos relógios. fiz isso porque um tempo apenas é suave quando não comunica com precisão quão dolorido pode ser o tempo sem você. (então dormi macio e veludoso no sem tempo, mesmo sabendo um tempo sem correndo lá fora, tão alegre e lindo quanto um gato malhado rodeado de sol)

Um comentário:

sergio disse...

Não quero mais falar das figuras. Estou tão dentro dessas leituras.
E não posso dizer outra coisa senão que meus dias estão soprados de vida.

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