13.12.06

carta do poema vocal.


honey,

que silêncio constrangedor. perdi o suporte material para minha voz. a boca se fecha rubra e carnuda, mastigando o som intratável que não se diz. recalquei minha oralidade nesta escrita. isto aqui é um poema-em-vozes dito cem vezes sem o despudor das coincidências sonoras. isto aqui é um poema-em-sopro tão fresco quanto o hálito da flauta doce descendo na janela. e a partir do momento em que te escrevo, há um tempo anterior e um tempo posterior, interdito, um silêncio entre o fim da ópera e o começo da memória. só não há história ainda, apenas as coordenadas de um diário de viagem. dias meus, dias teus que nem escrevi ainda. leio a tua respiração como um desejo de forja e ferreiro, porque algum deus soprou a letra e a voz no teu corpo. e fez com que teu espírito de barro andasse sobre a terra, para além do caos das estrelas, para trás das guerras, para o lugar das vitórias em asa e samotrácias. o que eu te respondo? fragmento. não posso ser todo se me obrigo ao desconhecido do teu esplendor, o mistério das tuas cordas vocais vibrando no ar. estou querendo me libertar da necessidade de te invadir fisicamente. queria ser um sopro musical entornando no teu ouvido. mas não sei encontrar minha casa nem meu fim se não alçar a finitude do teu bem. eu te escrevo, amor, para que me conheça e para que me reconheças no que escrevo, assim como o leão sabe a flor pela boca. por isso recalco a minha voz no que te digo. fico ensaiando a entonação, o gesto, o timbre de voz, para te pegar pelo íntimo dos ossos de barro. te fizeram e te colocaram no mundo, mas não sei onde está nem por onde vai. esse assunto é mistério. talvez por isso meu corpo esteja recalcado num gosto de dragão: línguas de fogo te lambendo seja lá onde for. mas o que fazer do poema-em-vozes se não te sei de rosto e ando pelas ruas feito um estrangeiro lacônico? um destino império me afasta ainda de tuas riquezas mesmo com toda libação que faço aos teus deuses. um silêncio de azeite e página se espalha pelo chão. é daqui que tiro minhas vozes, meus pedidos de amor que ainda não ouve. mas que há de ouvir, tão longo e tão heróico quanto o poema épico de todo um povo, gemendo na boca do velho ou da criança. tão somente porque o poema-em-vozes é minha carta de amor para o que não sei. e para o quando não estou. (siga minha corda vocal para saber quem sou e para extinguir o silêncio deste monólogo verbal).

Um comentário:

Hugo disse...

Eu acho que o que ocasiona a raridade é o mero não-saber. E eu juro que não entendo como seu blogue ainda não explodiu.

Quantos aos meus textos, eu não me sinto linear e não creio que tenha uma "estilística" pronta, sabe? Eu devo ter lido um, no máximo dois contos do Fernando Abreu e quase assisti a uma oficina sobre ele. O que eu sinto muitas vezes é que qualquer texto que tenha uma temática homossexual é "comparado" diretamente ao Fernando Abreu ou ao "Terceiro Travesseiro", sabe? E não falo isso por você, falo por alguns amigos meus.

Quanto ao mais, virei freguês.

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