16.12.06

carta & nostalgia.


my dear,

nada melhor do que brincar de nostalgia. fazer os olhos recuperarem memórias de atrás numa brisa de pálpebras que se fecham. depois da leitura das cartas, imaginei ana c. fazendo pequeno drama, ouvindo billie holiday numa sexta à noite sem ninguém (me vi no chão da sala, whisky na mão suando, nina simone roncando no aparelho uma angústia que não acaba mais). há tanto o que fazer aqui. deus sabe o quanto eu tento. entrei no mantra do sangue de cristo. às vezes chega a me dar arrepio. arrepio & medo. estou doido para reler rimbaud. prevejo grande mudança entre a leitura dos 18 e a dos 25. estou para visionário agora, embora escrevendo sem a complicação de antes. por isso abandonei aquele romance. nunca ia conseguir terminar. e se o terminasse, creio que nem eu mesmo o entenderia (poderia até soar como grande jogada crítica). aqui, o clima não pára de secar. pode guardar o guarda-chuva. minhas gengivas cospem sangue de tanto calor que faz. fico molenga feito um peixe de feira livre e sem saber o que vai ser feito de mim. tenho tanto insegurança quanto ao futuro. i'm fearing about the future. fear e ferida. juro que tento me imaginar em londres, andando por ruas cinzas, entre prédios cinzas e céu plúmbeo, mas não consigo. há algo de mais e de menor. e fico recuperando desejos antigos como num museu de arte viva. estou museólogo, mas sem tesão, fetiche ou amor. voltando à história de antes: brincar de nostalgia é divertido quando se faz com um passado que não se teve. por certo, daí é literatura, invenção pura. no entanto, se você pensar pelo menos dez vezes na memória inventada, até acredita que foi de verdade. e a vida, então, queda um pouco mais feliz. como é tão mais fácil sonhar a eternidade, love love love say you do, let me fly away with you, for my love is like the wind, and wild is the wind, fica gemendo nina simone no fundo dos olhos. não me importo tanto que não me escreva. you kiss me, with your kiss my life begins, o verso mais lindo, seguido de don't you know you're life itself? ana c. sabia das coisas. só errou com billie holiday acho eu. queria tanto receber de punho escrito num cartão seu a mesma coisa bem assim: 'i am aware of you, even if you do not write. i hold you in my mind'. mas é sempre você que não me escreve. o versinho cabe mais no meu envelope...nem minha infância cabe mais neste quarto. fico por agora antes que o tempo me suba pelas paredes.

Um comentário:

Hugo disse...

fear e ferida... muito bom.

nostalgia é quase uma doença pra mim. sempre foi e eu não entendo. será justificado na astrologia? nas cartas? em autos? tua descrição que me lembrou Clarice.

estou começando a me sentir repetitivo elogiando essas cartas. te linkei no blogue, só um informe.

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