28.1.07

carta dominical


dear,

hoje é domingo, dia quebrado no meio dos outros dias. porque aos domingos até as janelas amanhecem mais tristes enquanto os homens acordam mais preguiçosos e sonolentos. não há o que fazer, exceto as filosofias de sofá, as tardes no parque ou os banhos de piscina. domingo é um dia sem rotinas, exceto a dos almoços em família, nos quais as noras que se odeiam sussuram maldades debaixo da mesa, azedando carnes, saladas e maioneses. também é o dia em que as crianças gritam mais alto e fazem mais exigências na padaria: doces, tortas, picolés premiados, fanta uva. aos domingos os padres rezam missas, as mulheres ficam de joelhos pedindo à virgem auxílio para os maridos desempregados ou para os filhos drogados. nesses dias os meninos bons vão para a chácara ajudar os pais no trabalho que falta. e os maus ficam mais atrevidos do que nunca em qualquer lugar. aos domingos as freiras fazem caridade e os bem-aventurados de espírito, filantropia (o que é quase a mesma coisa). é dia em que os mais velhos oram pelos mortos e pensam na finitude, ao redor dos jasmins e dos cravos. aos domingos as horas se arrastam, penitentes, cheias de correntes e correias, como num martírio. é o dia em que os apaixonados mais sentem falta de quem amam, ainda mais de quem partiu e não tem data para voltar. é um dia cheio de acenos e lenços lambuzados de lágrima e catarro porque quem chora demais e verdadeiro se inflama. os domingos são um dia em que a poesia, ela mesma, se debruça no asfalto, como um gato atropelado - a sétima vida de um gato - que vira um gato novo no começo da semana. os domingos são o dia em que as barbas ficam por fazer até o final da noite quando, então, são bem feitas para uma segunda-feira quente de trânsito congestionado e ar-condicionado ligado no último. aos domingos, dear, eu sinto uma falta danada do amor que tive (e tenho) e que prometeu voltar e me amar tão logo fosse possível. aos domingos também tenho ódio porque foi neste mesmo dia que vi, de costas, entrar num avião quem amei mais violento e mais desejoso de um futuro inteiro. e o que me resta hoje então? cantar. hoje é domingo, pé de cachimbo...

2 comentários:

R. litig disse...

R>L>
o real e o irreal !
um pouco do que sei que é real e do que sei que é mentira!
mas atenção !
um bom escritor dis verdades absolutas aos seus leitores!
gostei da parte real!

zero disse...

é verdade... quem chora demais se inflama!

perfeito

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