26.4.07

carta romântica


honey,

há tanto o que dizer e tão poucas palavras para enformar o pensamento. não sei o que me incomoda mais: se o silêncio ou as palavras deslizantes. fico afagando a imperfeição da língua até que a saliva toda escorra pela página. minha baba tocaria sua baba? meus olhos pousariam de verdade nos seus? mexo os dedos por baixo da mesa tão nervoso. tem vezes que penso dar um passo adiante e são dois atrás. o tempo não pára. nossas conversas ficam entrecortas como pessoas de papel cortado unidas por mãos e pés. eu sou uma criança. somos duas crianças. e queria tanto que nossa mãe fosse a noite cobrindo nós dois com uma colcha de estrelas e beijos estalados. tenho sono e não durmo, mas tenho sonhos acordados com teus lados roçando nos meus. esquerdo, direito. alguns pêlos, calores de pele, beijos demorados. será que o medo que retrai a minha língua como uma onda ganhando força? se assim for então espere que daqui a pouco eu lanço aos teus pés tudo o que quero. me espera ganhar coragem para avançar com os tesouros deste mar interior. prometo que tocarei de surpresa seu corpo e, para minha surpresa, será bom. sem bronze ou sal, mas com mel e sol e brisa de hálitos frescos. desisti de fabricar o intransponível porque quero imediatamente subtrair a distância que nos separa e chegar a menos de um dedo dos teus ouvidos. os marulhos dos meus sussurros serão mais tranquilos que o quebrar de água nos rochedos, eu juro. e só faço promessas para o que posso e para o que quero, tão vívido assim e tão eterno. ainda não agradeço tanto aos céus porque não tenho tudo o que quero. nem sempre é assim, eu sei. mas tudo que eu quero se resume a um só pedido: você comigo. e para o tempo que for preciso.

Um comentário:

R. disse...

Baby, somos crianças hesitantes por trás dessas telas e teclas. Estamos frente a frente, separados por uma ponte. Cada um em uma extremidade, se preparando pra conhecer o que está escondido lá no meio. Pênsil, indecisa, frágil, essa ponte balança a cada vez que a insegurança sopra. Os primeiros passos em direção ao centro serão difíceis, eu sei, mas estou me livrando desses pesos amarrados aos meus pés e do medo de cair e me machucar. Quando chegar, quero ser recebido com um abraço quente e serás recebido com um beijo e quando nossos braços se cruzarem e nossos lábios se tocarem, vamos perceber que cada passo foi dado, sim, pra frente.

P.S.: Põe meu endereço nas tuas cartas e tuas palavras deixarão de ser "incorrespondências".
P.S. 2: Ainda escuto aquela música que retrata minha vontade na frase "I wish I could be touched by the hem of his garment".

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