26.4.07

impressionismo.


honey,

me faz perguntas difícieis como quem precisa escolher entre o azedo e o amargo. eu te respondo como quem comete uma gafe: bitter-sweet. não penduro endereços nestes envelopes, sofro da incorrespondência, você sabe por que. tenho hesitado entre os nomes das ruas e os números das casas, porque um sem número de vezes caminhei pelas ruas sem nome algum. sem placas ou identidade eu me confundia com a cidade na sua indigência. não vou dizer que tenho medo. eu sei que você fica arranhando e tirando do entulho todo tesouro meu que é possível. mas também não posso dizer que não tenho medo. sempre quando eu te olho ou quando me olha do teu lado, há um velho muro de cadáveres nos separando. as coisas mortas do passado, cada tijolo avermelhado. tanto eu quanto você sabe apontar onde há um coração emparedado na argamassa. posso te dizer uma coisa? o passado é o próprio diabo. ele segue tentando os ouvidos nossos com memórias de estilhaços. com medo dos cacos, não damos passo em frente com os pés descalços. e lá de baixo o diabo se diverte nos vendo temer na ponte pênsil os cortes imaginários. o amor, meu bem, exige a nudez dos corpos, sem cápsulas protetoras, nem aparências, nem nada. muito menos o medo. apenas quer a pura expressão de um corpo em chamas (mesmo que aqui já seja tudo feito de fogo, mar, vento e pedras preciosas). certamente você encontrará dentro de mim um quadro de klimt, uma escultura de rodin, o impressionismo de monet. sobretudo as impressões de monet. lá vai alto o dia, todo cinza e meio chuvoso. para que decidir entre um e outro se o que importa é o borrão? invada o meu limite de tintas e contornos. e imprima no meu corpo as marcas dos teus sonhos.

Um comentário:

r. disse...

Querido, até pouco tempo, era eu quem mais ficava assustado com os fantasmas dessa legião ultrapassada. Sentia como se, de repente, uma mão cinzenta pudesse perfurar o barro e trazer à tona um cadáver e todo sofrimento que por ele, um dia, foi proporcionado. O diabo está à solta mas amedronta apenas quem o teme e quem nele acredita. Eu posso dizer de novo, que com necessidade de alívio, estou aprendendo a driblá-lo.
Pensei ter ouvido me perguntar se me entrego como em um salto mortal a um relacionamento e achei que isso fosse requisito. Eu deixei de procurar meios termos mas acho que é melhor voltar a retaguarda, já que tens preferência pelo agridoce. Talvez seja preciso mesmo colocar sapatos e redobrar a atenção durante a travessia dessa ponte.

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