27.1.08

sommersturm.



honey,


as vogais não puderam esperar e expiraram no último quarto de hora. sem poder formar sílabas, as palavras se tornaram um amontoado de letras sem sentido, consoantes soando baixo e surdas. tudo isso porque sinto saudades do que eu nunca tive. sinto vontade de lembrar do que nunca houve. vez ou outra eu fico pensando que vai acontecer de eu encontrar essa parte do passado que não aconteceu, esse futuro embalado para viagem, na próxima esquina. depois me dou conta
que dou voltas e voltas na mesma quadra como quem passeia de roda gigante. que o destino é esférico eu já fiquei sabendo, só não avisaram que a minha passagem era um disco furado, arranhando os últimos acordes de um tango trágico. ou um vagão violento que já perdeu os trilhos antes de tocá-los, sem saber qual destino era o seu. aguarde notícias. estou um pouco confuso. se há algo de desertor aqui, disso que falta, por que acontece de aparecer outra vez, às vezes mais bonito e mais forte do que antes, outras vezes fraco e magro como um azarão? se há um desertor, pelo menos não há um deserto. há algo em mim, aqui dentro, que nunca parte, mesmo partido em pequenos pedaços, em rasgos de papel rasurado, perdido na voz paralisada pelo silêncio. se não é possível que venha na mesma quantidade, a vertigem ao menos vem, provando que nem tudo é improvável, que o tempo é permitido e que as distâncias são apenas a poeira do vento. acho que estou chegando, acho que posso me levantar, vogais de som ardente voam pelos ares e eu, honey, eu mesmo posso ser todo o amor do mundo e um colosso e um rei também. e com tais distinções eu posso fazer do alfabeto meu dorso, meu corpo, minha imagem, minha ferida de fuligem. é lá pelas margens que eu te encontro. lá pelas tantas que eu me vejo tonto e feito completamente o porto para onde podem ir todos os escalers. sem fazer um arco, sem fazer uma saudade. este só pode ser o princípio que se segue ao fim.

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