26.9.08

confissões. pop.




honey,

segue-se um momento de ruptura, a fratura nos ossos, os óculos escuros. desde que não está aqui a cidade está escura e os olhos, um pouco cegos. eu avisei que viria? pois não. sempre me esqueço. o fragmento nº54 acabou de decolar da mesa. esqueci das janelas, as cortinas encardidas farfalhando com o vento repentino, o repetido cheiro da chuva e o meu ponto cego para calendários. que dia é hoje? não tem importância. passeio pela casa de jeans e meias, sem camiseta. faço cara de burguês, tomando chá verde às três da tarde. faço cara blasé, de cara no espelho, as gengivas à mostra, um meio sorriso de desprezo. sim, meu amor, o progresso não pode ser frustrado. acho que lá fora vai uma bandeira comunista, o rosto do che e minha barba rala. nos últimos dias eu estou um mistério que só. você também, desde que nasceu.
volta antes das seis? eu te espero então, no trapézio, no ar, naquela altura mesmo que dá medo. juro que não sei escrever nem passar o tempo. mas as fotografias, então, são uma delícia. o sólido se desmanchou, em pleno vôo de libertação, menos aquela minha crença, naquela coisa que você definiria como versão pop de fairy tale. cheguei até a concordar, embora tivesse sugerido, pelo menos, uma troca de gênero. torci que fosse comédia romântica. fiquei esperando, nada me disse, fez cara feia e mudou o canal. eu, por mim, fingi nada esperar. nem nada dizer. aliás, nunca mais pensei segundo os pensamentos de deus. meio fora de propósito isso, mas de nada me adiantava me sentir apenas um pouco de poeira, grão de areia, cinza levantada. optei, pois, pela leveza. penso segundo o que me dá na telha. o que me soa mais legítimo, assim como minha cara de peruano autêntico (foi o que eu ouvi, no metrô, tardes atrás). estou recolhendo as conversas do pensamento, eu sei. é por amor a você que não me diz nada, só espia e dá risada. e mais do que isso: amor a mim mesmo, que me descobri. estou tão belo e inteiro que não preciso mais. suas coisas é que desmancharam um pouco, por distração minha. não tirei as coisas dos bolsos das calças, antes de colocar na máquina. espero que não se aborreça. o poema que eu tinha escrito se perdeu. também, não fazia diferença. andava naquele bolso, mais esquecido do que guardado. mas não importa. é incrível como o mundo não me importa mais. exceto o meu. coloco os óculos, uma hering, o jeans favorito e estou lindo de doer. que doçura é me esperar para o próximo encontro. faço cara de demora, enrolo, olho o relógio e vou ao cinema. sozinho. já até imagino a cara dos transeuntes, pescando aquela coisa indecifrável no ar, meio magnética. agora não posso ficar mais. estou de saída. não esqueça de deixar a chave. ah, mas não tem pressa. troquei o segredo. das portas e do padre.

Um comentário:

B. disse...

Sabe que, além de te admirar pelo que escreves, te admiro muito pelo pouco que leio no que dizes ser. Consigo te sentir tão bonito, tão coração de mel!
Um beijo.

Pesquisar o malote