20.1.09

ex-voto


dear,

o homem está perfeito. a escuridão, completa. cumpri o trabalho de recuperar todas as rasuras das últimas cartas, me recuperei dos atos falhos, da falha do dia primeiro, dos fatos da hora passada. o seu mundo segue sem se importar como o discurso esvazia estas cartas. o seu mundo segue sem perceber que a casa da esquina também se esvazia de convidados. a festa acabou e sobraram os confetes pisados no chão. olho para eles e sinto enjôo e outras formas agudas de tristeza. quase concluo que não tenho mais o que comunicar: a correspondência foi longe demais, e fomos. só escrevo porque tive imensa vontade de raspar as coisas que estavam por baixo. de quando em quando eu prometo revelar toda a verdade, expediente sazonal, mas ainda de um ritmo e um de rumor que adivinhará. escrevo para dizer que ainda não esqueci. eu avisei que não seria de um instante para outro, assim como por tédio alguém muda o canal da tv. você, por outro lado, sofrendo de uma inexpressão sem intervalos, cobriu-se da cabeça aos pés de desmemória. por isso, no momento posterior aquele em que a ignição soou, me dediquei à tarefa de esculpir seu rosto impenetrável em pedra-sabão. depois me apressei para esconder sua face de colosso no fundo do armário. fiquei rezando para que sumisse, desaparecesse e desintegrasse. hiroshima, mon amour. então olhei para o punho esquerdo e vi que o ex-voto de nosso senhor do bonfim ainda estava lá: o último pedido tinha sido o seu. quase esqueci que o amor tem esse gosto de sangue na boca, de morte. o gosto da fé: completamente cego.

[créditos da imagem: sebastião I, evandro prado, 2008]

2 comentários:

Anônimo disse...

a imagem me lembrou Leonilson, até achei que fosse.

Dia de São Sebastião. inspiração dolorida de flechas pros teus textos, sempre arrebatadores.

(semana passada vi que tinha KJ na tua LastFm...)

camipoetisa disse...

baby:
quanta delicadeza na tua linguagem densa, intensa, única. amei!

Pesquisar o malote