10.1.09

la cité interdite


lovely,


estive na cidade proibida e sabia que não devia ter penetrado seus redutos. fiquei reduzido a cinzas quando meu corpo tocou em outros corpos e nas estátuas de pedra. mas foi com a luz trepidante do teto que consegui retomar minha forma e o gosto do espírito santo. eu bem queria não ser invisível aos teus olhos e nem tão distante. você tem uma recordação, eu tenho todas. e as lembranças que tenho formam uma rede de pesca que me cobre de captura. já que você não sabe como as coisas aconteceram, eu não conto como foi nem como me lembro. eu invento nós dois. de trapaça acabo por inventar você comigo em qualquer lugar. admito que tenho vocação para essa alquimia do verbo, só que entristeço porque não conheço feitiço cruzado ou maçã do amor. sem você de encantamento não tem graça. declarei estado de emergência no interior da minha cidade corporal. antes isso que estado de sítio: a coisa pública do amor. acredito que no lampejo dos postes a percepção mínima do meu desejo derreta os filamentos das lâmpadas. a rua vai escura, você se cala e não fala nunca sobre o assunto. eu não me curo. e vão se trançando as redes, as tarrafas de peixes, estrelas coloridas de cadência, as músicas euvocê. lovely, de nada me serve o talento e a beleza. nem estou convencido disso. nem convenço você. se tivesse me permitido beijar os santos, eu mesmo não teria me desfeito. no entanto, vou me refazendo só para que me desfaça de novo [e de novo e de novo] até que eu possa ser teu todo inteiro. sem disfarce, rezas ou pedidos. eu não queria que tivesse partido e me partido em dois. eu vou ficar aqui, na curva e na dobra, reescrevendo histórias até sua volta. assim eu te vejo melhor e te visto de mim. tudo porque não sei alisar a verdade e conviver com o não-vivido.

Um comentário:

sergioperes disse...

Você cria alvéolos de tempo nos quais eu gostaria de estar. E o texto é lindo.

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