15.1.09

la declaración


ao som de knock me out, de linda perry.

dear,

depois que você se foi, desaprendi a comer. desaprendi a dormir. desaprendi a viver. você acertou meu calcanhar de aquiles e pisou ainda sobre mim, tornando ainda maiores as feridas. e eu não te esqueço de forma alguma. nunca nunca nunca, juro que não vou te esquecer. mentira. eu esqueci de você. ontem eu chorei o que pude. e esqueci de você. eu te esqueço agora, neste minuto e também no próximo. eu posso misturar os pronomes, ser redundante, disfarçar sua presença com os verbos, negar a pontuação. estou negando você. antes já era assim: você se esquivando, eu me mascarando de outro. tudo porque você não me explicou nada, não jogou limpo com as cartas, me deixou à mercê do mundo. você me roubou o dentro e nem percebeu. nem sei porque eu pedi tantas desculpas. não tive culpa. não temos culpa se o ciúme é irmão do amor, se os irmãos sempre rivalizam com a cara da lua. quem fica no meio do tiroteio, sempre perde. e pede para ficar. só que eu não peço mais. saio pela frente e não pela porta de trás, como um ladrão. eu disse que te venerava. e venero. só que não te quero mais. não te peço de novo que me ouça. com a indiferença de ontem, eu te esqueci. eu te desapareci do corpo porque você quis. me pôs inteiramente abaixo sem que eu pudesse dizer mais nada. e não podendo dizer, escrevi cartas-fantasma que não envio, não entrego e não faço conhecer. veja bem, amor, não é catarse o que escrevo, não é grito abafado do interior. eu só me deixei estender desde o calcanhar até a polpa suculenta do coração, deixei me escrever uma ensurdecida declaração de amor. eu era um minerador faminto, cheio de fome e sede, respirando minérios esgotados e pedras falsas. quando chorei, quis te seguir, te procurar, mas não encontrei um só vestígio de sua presença furiosa pela noite. e sei que não importa. já não importa que eu não coloque data nas cartas a fim de sinalizar esse ontem do qual digo e que pode ser qualquer ontem da minha vida. antes disso tudo vinha você sorrindo, beijando o irmão na boca, sempre sorrindo, e eu te queria e te devorava com os olhos e fazia alta represa do que sentia. quase acreditei que me queria, não fosse o seu comentário em tom perigoso sobre o longo affair meu e seu que se interrompia. o amor era sufocante, lembra? ou era assustador? agora agora mesmo eu me sinto culpado por uma única coisa: por mentir que não te amava e não te gostava mais e mais. doeu porque você acreditou logo nas minhas mentiras de toda noite ou fingia que acreditava só para deitar nos meus lençóis oceânicos sem medo. e embora eu fizesse promessas falsas a mim mesmo, de que nada, nem amor, algo se moveu por dentro. navios gigantescos se moveram com a mesma força de mil cavalos trotando no vento. só que fui tolo em não perceber os sinais, os vaticínios, as profecias. o presságio de tua boca seca, de tua ausência, de tua indiferença. e eu me perdi, dear, me perdi e eu não te odeio e nem te amo mais, eu sei que sou impostor quando eu digo isso agora, porque eu tenho ódio e amor esgasgado no corpo e ao mesmo tempo. odeio te perder. odeio te amar e não ser amado. amo amar você. mas agora eu te digo bem dito que eu te quero de volta e que eu te amo por completo, que eu não sei mentir, que eu só sei pedir, não sei rezar. de novo. e de joelhos. eu amei você. e amo.


4 comentários:

Anônimo disse...

fico até com medo de continuar lendo isso aqui. é lindo, intenso, íntegro, um espetáculo infinito,





o mesmo anônimo do KJnoBN.

marcio markendorf. disse...

caro(a) sr(a) anônimo(a).
nunca li esse livro do silviano santiago. aliás, está esgotado.
mas ouvi o som uma tarde toda,
só por curiosidade.

é bom saber que alguém está gostando.
mesmo que seja um leitor anônimo, de óculos escuros.

danpiantino disse...

comentário anacrônico:
os duplos se ferem o calcanhar quando não se reconhecerem ao se cruzarem; quando aumentam as feridas com críticas silenciosas; quando não enviam as cartas e as fazem fantasma; quando não sinalizam e, com isso, não compartilham memória; quando mentem o que sentem; quando simulam por um pequeno segundo que são impostores. Você já estava escrevendo minhas "Fraturas" e eu não percebi, preciso abrir meus ouvidos e admitir que é assustador ver o quanto deixou de ser compartilhado, mas sobreviveu em literatura. É mágico e triste.

Sebastião disse...
Este comentário foi removido pelo autor.

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