8.2.09

a pequena felicidade


honey,

se não pode me amar, ame meu texto e me ame pelo meu texto. derrube a sombra dos seus beijos sobre as páginas feitas do meu corpo. faça amor por trás das orações-biombo, faça sexo com as palavras. seja um indiscreto e perverso voyeur. mas ame-me. toque-me através dos textos, dos espelhos espessos de um verso. se não pode estar comigo, nem ser meu, invente-me no discurso erótico da fantasia. vista-me com o lado mais obscuro do desejo. violente minhas vontades, as verdades morais, os pecados de igreja. ame-me do jeito mais sujo se não pode ser com ternura, se não pode ser de verdade. ame a coisa mais perigosa em mim. retire a pornografia do papel, decalque meu dorso linguístico nos lençóis da sua cama, roce-me na sua roupa íntima, na toalha de banho. de súbito, seja o silêncio: a pausa entre o orgasmo e a língua depois da vírgula, a mordida no lóbulo da orelha seguido de reticências e de saliva. vai, embriaga-me de loucura, faça-me vomitar os significados, as inconfissões, o tesão nupcial. obriga-me a violentar meu papel de autor e me deitar na cama com o leitor para gozarmos nos verbos, conjugar o sexo oral, arrepiar os pêlos das entrelinhas. se não quer ser vulnerável, se não quer me amar, deixe-me ser seu artefato poético, sua máscara de teatro, a personagem do romance para quem você olha & chora & ama. eu não queria ser assim, amar no texto quem não posso amar fora dele. queria masturbar o brilho dos adjetivos para encontrar a luz do seu sorriso. queria esconder um encantamento entre as palavras para libertar as suas paixões. queria não precisar da magia, mas preciso. preciso aprender a viver a mesma solidão sua - essa que diz que o amor é o lugar onde se brinca de esconder. e se ainda finge, não tem porquê. eu já deixei o esconderijo embaixo da escada, já apareci na sacada, na entrada, na estrada. e não quis nem saber de me ver. por dentro, de verdade. prefiro que me veja, então, nos lugares onde me escondo - as palavras. aqui toda ficção é verdadeira, autobiográfica e de um amor maior que a morte.

7 comentários:

Diego disse...

você escreve muito bem, deixa as palvras nuas, as distorce, deixando-as pelo avesso

Christiano Scheiner disse...

lindo, belo - belo - belo
eu comentaria sem inúmeras vezes das tuas palavras que por vezes traduzem tão bem o que eu sinto (mais que as minhas). e te admiro a cada entrelinha. mais e mais.

Sérgio disse...

Primeiramente, parabéns pela nova roupa do blog.
Mas gostaria mesmo era de descobrir esse belo e intenso mistério que consiste em dar sentido à cotradição e a ordenar paradoxos. Que diapasão é esse?
Eu tomaria esse texto e o inscreveria no Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres.
Fora isso, seu texto é minha mais íntima companhia.

Bau disse...

Querido Márcio, sou sua fã! Gosto de seu estilo, da profundidade que imprime à narrativa. Beijos!

Anônimo disse...

Mais-que-perfeita,
tua frase em mim
faz-se explícita
e a recíproca verdadeira
cala em meu peito toda dor.

Mas guardo no silêncio
as palavras que, de súbito,
tornam-se infinitas
para que esperem nosso tempo,…
cada uma, a sua vez
de verterem permissivas
da minha alma,
por minhas veias, meus poros
e em minha boca,…
unindo-se ao teu nome,
que tantas vezes sussurrei.

Anônimo disse...

É um simulacro de felicidade essa Pequena felicidade. Ela propõe isso, uma encenação do amor que parece impossível sabe deus por quê. Gostei de o texto conter a imagem que chega a convencer o destinatário a agir de determinada forma,em oposição a uma outra imagem que sugere a não vulnerabildade.
Gostei muito.

Democrático disse...

saudade saudade saudade
;)

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