23.9.09

leãodade

dear,

ao final do dia, preciso esfregar a carcaça do leão no asfalto, ver a fera gemida, a pele rasgada e a carne sangrenta. depois, esfrego a arcada dentária, os ossos e a juba na minha cara para dizer: eu venci. e mesmo vencendo eu não me sinto melhor. vencido, o leão não é pior. o bom seria não precisar segurar na garganta a selvageria, o surto felino que vem das entranhas e das entradas do menino-homem. às vezes, às vezes o leão morde o homem. da ferida, da dentada marcada, vai-se um naco do corpo-menino, aparece o pus e a enfermidade. viver é uma doença. [seria quase a morte não fosse a vida]. eu me aguento na loucura que tenho. tenho vontade de gritar, não grito. tenho vontade de chorar, não choro. tenho vontade de correr, corro. deixo atrás de mim as pequenas epifanias das esquinas, dos calçadões, dos bancos de ônibus. atrás de mim, deixo as sensações mais profundas da vida. aguento-me na parte rasa do dia para que ninguém perceba a ferida. eu sangro. o leão mordeu-me e precisei fugir. mas fui forte outra vez. em silêncio, a fuga foi no silêncio do menino. e o homem, desapontado, diz: estou perdendo a conta de quantos leões de campanha precisarei esfolar na porta de tua casa. eu volto vivo e não sei quantos leões. é uma arena este lugar. uma casa deveria ser um lar. apenas sinto-me seguro na hora que você dorme, na hora que morre, na hora que me cospe pra dentro. ao final do dia, eu te engulo de silêncio para me sentir seguro. já não aguento te aninhar na carcaças de leão e gemer baixinho com medo desse teus medos tão meus.

2 comentários:

danpiantino disse...

.Como um leonino, de sobrenome Leal, me sinto no dever de pedir que se use a imagem felina com mais cuidado. mentira, rsrsrs.
.É lindo como você contradiz as imagens da fera felina com a imagem e o título do texto. Cabe ao leitor se apropriar, conscientemente ou não, de uma das duas imagens de leão que preferir. .Eu poderia embarcar na leitura simbólica... ou pior, na psicológica... mas prefiro voltar do texto ao texto:
~~~~~~
.Enquanto pega no sono, o leão solta pequenos rugidos de fastio. Seria um ronco, não fosse rugido de leão. Rugido de fera tem som de flauta longa, ar quente através do tubo. Seus suspiros de cansaço reviram a terra.
.Um desenhista a carvão não esfumaçaria tanto a terra quanto um leão em sua respiração fatigada.
.Preso... preso está o leão. Se morde é para ter algum divertimento dentro do circo... .Preso na folha de papel o leão se pergunta quantas histórias as crianças assustadas inventarão ao ouvir dos pais: "cuidado, o leão é perigoso e morde crianças". Ele responderia, houvesse algum som nessa superfície de papel: "Leões não morrrdem, eles cerrrcam e comem crianças de rroupa bem passada e cabelo engomado". E riria muito das bochechas assustadas diante de seu olhar de caçador.
.Lealdade na escrita é dar voz ao leão ao invés de tentar calá-lo.

Anônimo disse...

e por que justamente o leão de rembrandt? ai, ai...

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