11.2.13

a ver navios

honey,

você está em algum lugar no litoral, a ver navios. talvez o cais não seja muito longe de onde esteja, onde quer que esteja. eu imagino seus pés esmagando uma areia fina e seu corpo se deitando em uma toalha colorida só para ver o mar por um instante. depois, quando o sol esquentar sua pele dourada, você irá a passos largos em direção ao mar, saltará algumas ondas e, enfim, dará um mergulho longo. você irá se levantar da água como uma serpente, uma água-viva, uma sereia. tirará os cabelos do rosto, a água deslizará pelo dorso e olhará para trás. não sei se estará me procurando ou se estará apenas conferindo se a praia continua no mesmo lugar. é mais provável, entretanto, que a cena não seja tão poética assim. sim, eu me culpo, eu tenho devaneios tolos, tenho sonhos a inventar. é provável que suas maiores preocupações tenham a ver com o tom do bronzeado, com o medo de uma arraia, com o que haverá, mais tarde, para o jantar. o amor não se ocupa do seu corpo agora. e por mais que diga que pensa em mim, sei que os pensamentos não passam de um arrependimento e de uma pergunta se. eu já não acredito que possa voltar, que deixe o litoral e volte para mim. já não penso mais em você com a mesma frequência, já me importo menos. o que havia, não está desaparecido, somente se enfraqueceu. e esta fraqueza é como a de um corpo doente, apodrecido por um mal que logo levará à morte. e um morto, não será jamais esquecido, será do funeral em diante uma recordação e uma ausência dolorosa.

eu me ausento de você desde agora. tudo porque o que você tem para me oferecer não é o suficiente, não é o que eu quero, não é o que eu esperava. acreditei que tivesse sido um encontro de almas que já se procuravam havia muitos anos, havia muitas vidas. duas almas se perseguindo até se encontrarem por acaso, sós e a sós, em um caminho de calçada. 'um milagre', havia sido meu pensamento, 'um milagre este encontro'. tudo porque desde sempre, desde o primeiro dia. antes era só aquele colher de gestos tão platônicos quanto distantes e cuidadosos. depois que nos encontramos, era para ser infinito, ao menos poderia ter sido. mas preciso admitir que não toquei seu coração e que seu coração nunca será tocado por mim apesar de todos os esforços que tive em achegar-me mais perto - o que é uma redundância.

não sei se é mais doloroso o amor que nunca se teve ou o amor que fracassou. por isso estou triste. hoje é um dia triste. há dias estou entrando nessa tristeza que é um luto. quando eu disse tudo aquilo, baby, estava encerrando nossa história e retirando o exercício do meu afeto das cercanias. desde que partiu para o litoral, pensava eu que pudesse voltar. não me fechei para as coisas do mundo, conheci pessoas. contudo, essas pessoas não me conheceram e nem virão a me conhecer. eu só me dou para o encantamento. não houve nada desse tipo, nem um feitiço temporário. eu me apegava à ideia de que pudesse acontecer, que o litoral fizesse bem a você e seus desejos. eu me enganei, eu sempre estive enganado em relação a você. agora, depois do que eu disse, talvez alguma pessoa possa me conhecer - não terei medo de que você volte e surpreenda-me com algum affair, com algum capricho. se bem que imagino que seria diferente para você, algo bem distinto da dor que tive ao ver você aos beijos com um par de dança. a cena era a prova concreta de que suas palavras eram verdade. e a culpa é minha: eu sonhei que o amor nunca morreria, mas os tigres vêm à noite com vozes suaves como trovões.

tudo bem. eu estou bem. a tristeza é só passageira. não se preocupe comigo. está acabado, está finito. mas de tudo o que eu sei: um dia você conhecerá o amor e será algo devastador. não esta calma. não este mexer de talheres e este tilintar de taças em um jantar educado. o amor dos amantes é furioso. não penso na paixão, o fogo fátuo dos dias pantanosos. eu falo deste amor que perdoa até mesmo as palavras, pois para ferir um coração a navalhadas bastam algumas orações. e eu perdoei suas rezas, seus esconjuros, seus palavrões. eu perdoei você. eu perdoo sua despedida antecipada, sua terra devastada, sua fuga para o interior. e sobretudo: eu perdoo a mim por ter amado, por ter esquecido que o amor é retribuição e por ter fraquejado e rabiscado um último poema de amor enquanto estou a ver navios:


se tu me amasses,
eu não estaria aqui,
no mar.

meu corpo não seria uma estátua
tão bronze

nem minha boca tão queimada
de sal.

se tu me amasses,
eu não passaria desatino,
nem fome, sede, medo.

também não viveria mais
o veneno de ser um clandestino.

e tu me amasses,
eu não morreria,
viveria de preces
até o fim do fim dos dias.

eu não sentiria febre
ou dor
ou raiva
ou rancor de outras alegrias.

se tu me amasses,
eu viveria tão só por ti,
emborcado pela pele do teu corpo
iluminado.

mas como não me amas
e porque tanto te amo:

eu desfaço-me,
destroço-me,
naufrago-me

fazendo-me língua das marés
para lamber teus pés bronzeados,

e me aproximar molhado
para amar o que o amor traz à praia.


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